A Viúva Alegre (por Nestor de Oliveira)

A noite andava pelo meio, o coquetel tinha terminado, minha vontade, turbinada por duas doses a mais, [...]

A noite andava pelo meio, o coquetel tinha terminado, minha vontade, turbinada por duas doses a mais, era continuar no embalo. Lembrei-me da ótima casa do Otávio Clementino, o Primo Prima e fui encontrar os encantos de um lugar divertido, boa música e cheio de mulheres bonitas. Eram todas bonitas e se alguém discordasse é porque estava com doses a menos. Otávio e Lídia criaram, na cidade, uma opção de bar/boate com ótima frequência, som agradável, descontraído e aconchegante. Durou décadas, até a morte do Otávio, na avassaladora pandemia que levou tantos amigos e entristeceu o país. Ficou o legado de como fazer uma casa noturna agradável, descontraída e bem frequentada.

Os clientes, homens e mulheres, educados, gentis, soltos e carentes, na procura de um ombro amigo para uma dose a mais, ou, quem sabe, terminar a noite acompanhados. Uma modernice dentro do princípio fundamental de bons amigos, onde o encontro é sem consequências ou compromissos, não importando se somente houvesse aquele. Se acontecesse outro, melhor, mas se assim não fosse, tudo bem.

Lá estava ela, alta, elegante, belo corpo, iluminada, radiante, divertida a fazer felizes seus companheiros de mesa. Vestia-se com classe, tomara que caia verde claro, um conjunto de joias de chamar atenção, ricas, brilhantes e originais. Sobrava charme e alegria. Tomando mais uma, no balcão, perguntei ao conhecido garçom quem eram: – “É D. Vilma, viúva e herdeira do empreiteiro Walter, celebrando com amigas seu aniversário. Só estão tomando Don Pérignon e as demais são empresárias, advogadas, outras viúvas afortunadas e descompromissadas”. Era uma apoteose de lindas mulheres, diversão e alegria. Chega meu amigo Helinho e continuamos a apreciar aquele happening.

Lembrei a ele da opereta “A Viúva Alegre”, passada em Paris, no fim do século XIX, que conta de maneira cômica a história da viúva de um banqueiro e herdeira de grande fortuna, Hanna Glawari, que é convidada para uma recepção na Embaixada de um país fictício, por coincidência sua terra natal. Sua viagem a Paris abalou seus patrícios temerosos que ela gastasse toda herança na cidade luz. Um conterrâneo seu, conquistador e conhecedor das artes do encantamento, foi escalado pelo Duque, chefe do Estado, para que ele, Danilo, a fizesse apaixonar-se e voltar com a fortuna para seu falido ducado. O autor, Franz Lehár, faz uma paródia e crítica aos costumes da época e à própria ópera.

Lá estava Vilma, a viúva, sua alegria, seu champanhe, as amigas, só faltava um Danilo. Discutimos, eu e Helinho, quem poderia fazer tão importante papel e fazer reviver ali, naquela hora, a história tão bem contada pelo austríaco/húngaro. Não deu outra, fui o feliz escalado, porém com a inevitável ajuda dele, que conhecia uma das convivas. Tudo fica mais fácil quando há alegria, corações abertos e bebida à vontade. Ele foi à frente como precursor, fez as mesuras necessárias, falou de mim, um solitário amigo do balcão e o garçom veio com o convite: – “Tem um lugar pro senhor na mesa e pedem a sua presença”.

Lá fui eu com minhas doses de whisky, imediatamente solicitado a passar para o champanhe. Assim foi. Assentei em frente da aniversariante, toda prosa e gentil me cobria de atenção e charme. Prosa vai, prosa vem, falamos de solidão e saudades, não sei como nem porque já estávamos a dançar no salão, ao som de “Strangers in the night”, com Sinatra. Outras músicas e continuamos com trocas de palavras carinhosas. Eu a sentir seu perfume sedutor, falei não sei o que, ela gostou. Aconchegou-se mais, rostos colados, mãos entrelaçadas a trocar afetos.  Talvez a bebida tenha me afetado, mas a ela ainda mais. Baixinho, com um beijo no ouvido, ela pediu: – “Você me leva pra casa”? No dia seguinte, sol alto, acordo num quarto diferente, ressaca forte, ao lado de Vilma, que dormia profundamente. Dei-lhe um beijo na face, tentei acordá-la, sem sucesso, virou-se para o canto e continuou a dormir. Com a pressa de trabalhador atrasado vesti-me, passei água no rosto, penteei os cabelos e fui, não sem antes deixar um delicado bilhete de agradecimento, esperança e meu telefone. Seu perfume ficou impregnado em mim, até o banho da noite. A lembrança vive.

Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor

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