
E não é que apareceu no meu quintal um pássaro bitelo de origem misteriosa, desconhecido na vizinhança? Vestia a plumagem peitoral de galo carijó e boina preta no topete. Voando como um pombo-correio, exibia a cauda desenhada como um leque branco de punho preto.
Pousava. Recolhia as asas. Empinava a cara dura, o bico adunco. Girava o pescoço, com lerdice. O vulto desaparecia assustando a passarinhada. E acabava voltando à procura de alguém.
Quisera ser eu.
Mas o visitante não espelhava o sonoro passarinho que, nos versos declamados da minha infância, trazia do Rio de Janeiro para Vila Rica juras de amor, sob a doce vigilância das professoras Glória Moreira, Iracy Pessoa e Maria José Jardim.
Entoava-os de cor. De pé, na sala de aula instalada em sobrado de pau a pique, o assoalho feito de tábuas centenárias. No bolso da camisa, a etiqueta do Grupo Escolar Odilon Behrens – em homenagem ao secretário da Educação na gestão do governador JK e ex-jogador do Atlético.
O aedo de penas transportava as rimas do português Tomás Antônio Gonzaga para Marília. Ela, a amada Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão, de “faces cor-de-rosa”, “sobrancelhas arqueadas”, “carnes de neve formada”.
Pela Estrada Real afora, o mensageiro tomou o caminho de Minas, conforme as instruções de seu amo. Gonzaga apodrecia na prisão da Ilha das Cobras, à espera da deportação para Moçambique. Fora acusado de integrar o bando dos inconfidentes traído por Joaquim Silvério dos Reis. Vivíamos os tempos torturantes da derrama de 1789.
Para trás, o estafeta alado, incorruptível, pontual e confiável como o cocaiense Jonas dos Correios de antes do escândalo do mensalão, deixou o Porto da Estrela. De lá partiam embarcações abarrotadas de sacas da lavoura colonial para o abastecimento da cidade fundada por Mem de Sá.
Voou por 300 quilômetros. Sem escalas. Servia-lhe de bússola o Pico do Itacolomi, até baixar nas ruelas da futura Ouro Preto, onde Marília residia, ao lado de um chafariz, no bairro de Antônio Dias.
Meu quintal, posicionado entre as serras da Piedade, da Cambota e do Caraça, esconde-se nas estradas de Minas, mas foge à rota traçada pelo poeta ao pássaro cantor.
Aquele da minha vidraça não se distinguia como Pavarotti. Soltava gritos desafinados.
Seria uma águia andina em escapada das guerrilhas colombianas?
Um gavião caçador da pintainhada dos quintais laterais?
Quem sabe, um faisão brincando de “nêgo fugido”, amoitado ora no topo das mangueiras, ora no pico dos abacateiros.
Ou jacu domesticado?
Sinto falta do naturalista local José Batista da Silva. Na minha opinião, o mais laureado cientista que vagou pela região desde a passagem do botânico Auguste de Saint Hilaire por aqui em 1816, a caminho do Caraça.
Seu predecessor francês descreveu no livro “Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais”, com precisão e entusiasmo, a topografia, a flora e a ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens, fundada pelo Irmão Lourenço.
José Batista era autodidata. Um humanista de horário integral. Ninguém conhecia mais de orquídeas do que ele. Discorria, “Summa Cum Laude”, sobre as orquidáceas que germinam nos troncos das nossas matas, enquanto costurava botinas. Exercia a profissão de sapateiro. Batia solas, com esmero de um joalheiro e a suavidade de uma debutante.
Percorreu, com fôlego de Borba Gato, mil léguas do Espinhaço. Namorando plantas, recolhendo espécimes para seu orquidário. Uma delas, a Sapatinho. Beliscava frutinhas do mato, nas caminhadas.
Certa vez, subimos a Serra do Garimpo, costeando as terras da Cambota, nas barranqueiras da Cachoeira de Cocais, antes que ela fosse invadida por hordas de motocicletas de Belo Horizonte.
A pé. Ele, Mário Syrio e eu.
Alcançamos os campos rupestres que se abrem a 1.300 metros de altitude sobre rochas ferruginosas e quartzíticas, de idade perdida na memória do universo.
Deslumbrantes.
Lá em cima, as nuvens rendadas como pálio, descobrimos a cabeça. Inclinamo-nos, respeitosamente, para a travessia do Arco de Pedra, burilado pelo vento. Sob o monumento, testemunha de bilhão de anos daquelas paragens, um bando de jacu pastava nas gramíneas, entre canelas de ema e a solidão.
Batista, o cientista sapateiro, disse que os jacus habitavam o território compreendido entre os santuários da Piedade e do Caraça. Apreciavam passear na orla do rio São João, no Cabral e no Brumal.
Vai que um jacu cruzara a minha janela.
Mesmo assolada por mineradoras e motoqueiros, a natureza prega surpresas na região. Na estrada para Bom Jesus do Amparo, assisti a veados galheiros atravessarem a rodovia asfaltada. No morro da Lagoa, a poucos metros da minha casa em São João do Morro Grande, vi um mono-carvoeiro encostado na cerca. O maior primata do continente latino-americano espiava o movimento dos carros.
Apontei a câmera do celular para o arvoredo da minha reserva natural particular. O pássaro fiscalizava o pomar. Olhos atentos. Tinham a destreza de um operador de periscópio.
O chapéu na cabeça, na verdade, arremeda um solidéu eclesiástico visível nas igrejas barrocas de Minas Gerais. O bico revela sua linhagem rapinante, apto para sequestrar filhotes em ninhos desprotegidos, roedores, pequenos animais e até mesmo crias cambaleantes de ovelhas. Carniça, também.
É um carcará – disse o vizinho Éber de Almeida, formado em Filosofia pela UFMG após passagem pelo Seminário do Caraça, dos padres lazaristas. Éber explicou que o carcará, celebrizado na canção de João do Valle, é uma das 400 variedades da esplendorosa avifauna caracense.
Nela, o carcará “pega, mata e come”. Lá no sertão, diz a música,
“É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião”
Mais:
“Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele pega no bico inté matá”
A canção, lançada em 1965, despertou os ouvidos do público para a voz rascante de Maria Bethânia. Denunciava a tragédia nordestina da seca, da fome e do êxodo rumo ao Sul, em agoniada procissão.
Hoje, ela não toca mais na mídia nacional.
É outra a vergonha que aperta o gogó dos brasileiros.
Na Rádio Itatiaia, o jornalista e apresentador Júnior Moreira discursava, naquele dia, sobre o caso do Banco Master.
J.D. Vital é Jornalista e Escritor e lança em breve seu novo livro SE RECLUTAN GUERRILLEROS, disponível a partir de 4 de julho na www.editoraramalhete.com.br




