Quando a vida acumula histórias (por Vera Helena Castanho)

Nesta semana pensei em escrever sobre a Copa do Mundo. Também pensei no caso do Banco Master, [...]

Nesta semana pensei em escrever sobre a Copa do Mundo. Também pensei no caso do Banco Master, nos velhinhos aposentados, em Elon Musk trilionário, nas disputas políticas, nas populações em guerra e nas eleições.

Considerei falar sobre maratonas, sobre uma viagem ao Butão que marcou minha vida, sobre o nascimento do meu amado Pedrão, sobre os filhos e netas que vivem longe ou sobre minha mãe centenária, que segue firme, cozinhando e me ensina, sem nada dizer, algo sobre o tempo, a condição humana e a vida.

Mas, curiosamente, nenhum desses temas me escolheu.

Enquanto buscava um assunto, percebi algo que talvez fosse mais interessante do que qualquer um deles.

Quando a vida acumula histórias, acontece uma transformação silenciosa.
Na juventude, buscamos experiências. Queremos conhecer pessoas, lugares e ideias. Queremos construir uma trajetória. Existe uma espécie de fome de futuro.

Com o passar dos anos, porém, algo muda.
As experiências deixam de estar à nossa frente e passam a habitar dentro de nós.

Elas se acumulam sem fazer alarde.
São os trabalhos realizados, os amores vividos, os amigos que permaneceram, os queridos que partiram, as alegrias inesperadas, as dores inevitáveis, as viagens, os encontros, os erros, os acertos e os recomeços.

De repente, não falta assunto.
Falta escolher qual história merece ganhar palavras.

É uma percepção que tenho observado com frequência.
Nas conversas, especialmente naquelas que surgem de forma espontânea, uma lembrança chama outra. Um tema atual desperta uma experiência antiga. Uma notícia leva a uma reflexão. Uma pessoa faz recordar outra pessoa.
Às vezes até brinco dizendo que talvez eu fale demais porque já vivi muito.

Mas penso que existe algo mais profundo acontecendo.
Cada experiência deixa marcas. Não apenas memórias. Deixa conexões.

A Copa de hoje me faz lembrar as Copas que vivi. Uma conversa sobre tecnologia me leva aos meus anos na IBM, quando ainda não existia computador pessoal. Uma reflexão sobre o futuro me faz recordar pessoas que encontrei pelo caminho. O cuidado com minha mãe me aproxima das questões da finitude. A distância dos filhos e netas me faz pensar sobre amor, presença e pertencimento.

Talvez seja assim que a experiência humana se organiza.

Uma história se conecta a outra. Um significado encontra outro significado. E a vida vai formando uma espécie de tecido invisível que nos acompanha.

Talvez por isso eu tenha demorado para encontrar um tema hoje.

Porque, quando a vida acumula histórias, cada assunto deixa de ser apenas um assunto.
Passa a ser uma porta de entrada para muitas outras lembranças, pensamentos e sentimentos. Ideias que se formulam espontaneamente.

Hoje sei que a maturidade não significa ter respostas para tudo.

Tampouco transforma, obrigatoriamente, cada experiência em uma lição.

Gosto de pensar que existe algo mais simples e mais humano.
Reconhecer a riqueza das histórias acumuladas.
Escutá-las com mais atenção.
E escolher, com serenidade, qual delas deseja se sentar conosco por alguns instantes.

Porque a vida não é medida apenas pelo tempo que passa.
Mas, principalmente, pelas histórias que permanecem.

E, às vezes, o maior privilégio não é ter uma grande história de vida para contar.
É perceber quantas histórias a vida nos permitiu viver.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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