O que é ser inteligente? (Vera Helena Castanho)

… quando as máquinas parecem inteligentes. [...]

… quando as máquinas parecem inteligentes.

Manhã de domingo.
Dia de recompor a serenidade da mente.
Saio em paz para correr meus quatro quilômetros em ritmo tranquilo. O céu está azul. O clima convida ao movimento. Encontro amigos para um café, algumas boas conversas, risadas e algumas abobrinhas.

Mas a mente continua trabalhando.
Há perguntas que não respeitam domingos.
Uma delas tem me acompanhado muito ultimamente:
O que é ser inteligente?
Uma pergunta que sempre esteve no centro da minha vida profissional.
Já são décadas trabalhando com pessoas.
Na IBM, na consultoria, na docência e na clínica.
Observando pessoas em todas suas dimensões e na perspectiva mais difícil de nomear, ligada ao sentido da vida, aos valores e à consciência.

E o objeto do meu interesse sempre foi o mesmo: compreender como as pessoas pensam, escolhem, amadurecem, sofrem, aprendem e transformam suas vidas.

Atualmente, porém, existe um fato novo.
Pela primeira vez na história, convivemos diariamente com tecnologias capazes de responder perguntas, produzir textos, criar imagens, organizar informações e executar tarefas cognitivas com impressionante velocidade.
As máquinas estão cada vez mais inteligentes.
E justamente por isso a pergunta retorna com força renovada:

O que é ser inteligente?

Durante muito tempo associamos inteligência à capacidade de acumular conhecimento, processar informações e encontrar respostas.

Mas essa definição já não é mais suficiente.
A inteligência artificial participa diretamente do universo do conhecimento e da informação. Sua capacidade de processar dados, estabelecer relações e gerar respostas impressiona e continuará evoluindo para sempre.
Mas diferentemente, inteligência humana não é apenas a capacidade de processar informações.
É também a capacidade de transformar experiências em consciência.
Parte da inteligência humana não está apenas naquilo que sabemos.
Está naquilo que somos capazes de viver, compreender e transformar internamente.

Ao longo da vida observei milhares de pessoas.
Executivos. Alunos. Clientes. Pacientes. Atletas. Amigos.
E sei que a inteligência raramente se revela apenas quando alguém resolve um problema.
Ela aparece quando uma pessoa suporta uma perda sem perder sua
humanidade.
Quando reconhece um erro e aprende com ele.
Quando muda de ideia diante de novos fatos.
Quando faz uma escolha difícil.
Quando encontra sentido em meio ao sofrimento.
Quando percebe algo importante que ninguém havia percebido.

A inteligência artificial pode responder a uma pergunta.
Mas não pode viver uma experiência.
Pode descrever a coragem.
Mas não pode ser corajosa.
Pode explicar o luto.
Mas não pode atravessar uma perda.
Pode falar sobre amor.
Mas não pode amar.

É por isso que é tão importante ampliar nossa compreensão sobre inteligência neste tempo de extraordinárias transformações.
Conhecimento continua sendo fundamental.
Tecnologia também.

Mas a experiência humana envolve algo mais.
Sabedoria. Discernimento. Criticidade. Consciência.
A capacidade de atribuir significado ao que vivemos.

Talvez uma das maiores contribuições da inteligência artificial seja justamente nos obrigar a olhar novamente para aquilo que continua sendo profundamente humano.

Não estamos apenas discutindo inteligência artificial.
Estamos sendo convidados a refletir sobre inteligência humana em um mundo onde a inteligência artificial existe.
E talvez a pergunta mais importante do nosso tempo não seja o quanto as máquinas serão capazes de fazer.
É compreender quais capacidades humanas se tornarão ainda mais valiosas justamente porque a IA existe.

Tecnologia amplia capacidades.
Mas discernimento humano continua sendo o que escolhe a direção.

Em um mundo cada vez mais inteligente, consideremos que o maior desafio não é criar máquinas mais capazes, mas preservar nossa capacidade humana de transformar a experiência da vida em consciência.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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