
Conta-me uma tia que quando eu tinha três ou quatro anos chegou ao meu quarto e ouviu minha mãe dando-me uma bronca. Mamãe era uma mulher expressiva, dramática às vezes, teatral. A espinafração era porque eu não queria tomar a mamadeira. Imagino a cena:
— Gente, este menino me mata. Agora deu para não comer nada. Encapetado! Eu vou te levar ao Padre Antônio, menino. Ele vai te benzer.
E em seguida, baixando a voz, muito carinhosa:
— Filhinho, você não tomava tão bem a mamadeira? Por que não reclamava, hein?
— Por que eu não sabia falar.
E diz a minha tia que cresci assim. Dizendo as coisas em três ou quatro palavras. Não sei disso. Não me imagino medindo as palavras, porque nelas vejo a faculdade mais admirável do ser humano: a capacidade, o poder, o privilégio da fala.
Um dia desses, folheando em uma livraria de aeroporto um desses best sellers sobre “como fazer isso ou aquilo”, dei com um capítulo a respeito da arte da comunicação. E o autor assegurava que a palavra representa pouco no ato de comunicar. Muito mais importante seriam o tom da voz e a postura. Sem ter nenhuma pretensão de dar sobre o tema a última palavra, acho isso uma idiotice.
O tom da voz impõe, a postura compõe, mas a palavra é que convence. A palavra meiga, no carinho; lancinante, no debate; persuasiva, no negócio. “A mais bela, a mais expressiva, a mais difícil das artes”, advertia Latino Coelho. É por isso, por conhecer seu poder, que alguém nos corta a palavra quando argumentamos. Por que gostaríamos que fosse nossa a idéia bela, espirituosa ou expressiva é que dizemos: “Puxa! Você tirou-me a palavra da boca.”
Então criamos todo um culto à palavra: “Palavra de honra”, “palavra de rei não volta atrás”, “empenhar a palavra”. Para ensiná-la, o homem criou a cátedra; para exercitá-la, a tribuna. E para molhar a palavra, da forma mais doce e prazerosa, na homenagem maior que lhe prestou, o homem inventou a mesa do bar.
“Falar é fácil
Falar é falso
Faca fatal
Fiel de foice
A fala é fiel,
ferida e coice”
Ah! A palavra na poesia. Gostaram dessa, de João Evangelista Rodrigues? Mas vamos acabar com esse palavrório, fiquemos por aqui para que o leitor dê ao cronista sempre um creditozinho a mais para palavrear.
Lindolfo Paoliello é cronista e acaba de lançar sua nova coletânea de crônicas, “A guerra de cada um”, pela Editora De Rey. Já na Amazon, link: https://www.amazon.com.br/



