
Leão XIV, o primeiro “Papa Negro” da história moderna, futucou as feridas abertas da Igreja Católica na encíclica inaugural de seu pontificado, lançada em Roma na última semana de maio de 2026, intitulada Magnifica Humanitas em latim e em português Magnífica Humanidade.
Seu alvo, destacado pela mídia internacional, foi a Inteligência Artificial acusada de manipular as mentes, subjugar nações militarmente e colonizar as almas dos homens. No texto, porém, há uma bomba moral, que pouca gente percebeu ou deu importância.
O pontífice norte-americano com cara de peruano surpreendeu as correntes progressistas que o veem com desconfiança e relutam em aceitá-lo como sucessor do carismático Papa Francisco. Consideram-no um papa apagado. Sem sal. Tímido e sem luz própria. Apesar de sua corajosa resistência ao neocolonialismo do Presidente Donald Trump, seu conterrâneo.
Leão XIV apresentou um pedido histórico de perdão pela demora multissecular da Santa Sé em reconhecer sua culpa na legitimação da escravidão.
Os jornalistas Nicole Winfield e Paolo Santalucia, da agência Associated Press, escreveram para a National Catholic Reporter, que outros papas já haviam pedido desculpas pelo tráfico transatlântico de escravos. “Mas nenhum deles jamais reconheceu publicamente o papel de seus predecessores em conceder aos soberanos europeus, explicitamente, autoridade para subjugar e escravizar infiéis”.
Os africanos capturados, marcados a ferro quente como gado e levados em porões de navios negreiros para o Novo Mundo, especialmente para o Brasil, a América Central e os Estados Unidos, eram classificados pela moral da época como infiéis. A bula Dum Diversas, datada de 1452 e assinada pelo papa Nicolau V, autorizou os reis de Portugal a reduzi-los à escravidão “perpétua”.
No período de 1456 a 1514, segundo o jesuíta Christopher J. Kellerman na obra “Toda Opressão Cessará: Uma História da Escravidão, do Abolicionismo e da Igreja Católica”, os papas Calisto III, Sisto IV e Leão X renovaram as permissões, estendendo os direitos de dominação aos soberanos espanhóis.
Mais de 12,5 milhões de africanos escravizados foram embarcados, à força, para as Américas por comerciantes do tráfico negreiro no período compreendido entre 1514 e 1866, segundo estudo da Revista Pesquisa Fapesp, veiculado na edição 290, em 2020. Foi, segundo o texto, “o maior movimento de migração forçada documentado pela história”.
O Sucessor de Pedro aproveitou o 135º aniversário da Rerum Novarum, para recordar o Papa Leão XIII que em 1891 condenou claramente a escravidão e lançou as bases da moderna doutrina social da Igreja, com atenção aos trabalhadores na revolução industrial.
O Papa americano não se alinha entre os historiadores contemporâneos indulgentes, muitos deles tonsurados, que pegam leve na compreensão dos crimes do passado.
Escreve:
“É verdade que os acontecimentos do passado não podem ser considerados de forma a-histórica, como se os critérios amadurecidos ao longo do tempo tivessem estado sempre disponíveis. No entanto, não podemos negar ou minimizar o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura”.
Sua Santidade insiste:
“Se na Antiguidade e na Idade Média, muitas pessoas e instituições eclesiásticas tinham escravos, durante a modernidade, instigada pelos pedidos dos soberanos, a Sé Apostólica romana interveio, várias vezes, para regular e legitimar as modalidades de submeter e, nalguns casos, reduzir à escravatura os ‘infiéis’”.
Segundo o soberano do Estado do Vaticano, a escravidão, tolerada pela Igreja durante muito tempo, só recebeu a condenação “formal, absoluta e universal”, a partir do século XIX, particularmente com seu predecessor Leão XIII.
“Trata-se de uma ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios” – declara, acrescentando ser impossível “não sentir profunda dor, ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com a sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”.
O Papa Prevost, nascido em 14 de setembro de 1955 no Hospital Mercy, em Chicago, sabe do que está falando. Ele carrega sob a tiara papal a memória incicatrizável da escravidão na sociedade americana: descende de uma família com um pé na Casa Grande e outro pé na senzala. Sua história pessoal assemelha-se à do ex-presidente Barack Obama, filho de pai negro e mãe branca.
Um estudo genealógico conduzido pelo escritor Henry Louis Gates Jr., publicado no jornal The New York Times, rastreou as origens do herdeiro do Trono Petrino. A pesquisa revelou que 17 ancestrais maternos de Robert Francis Prevost têm herança africana, descritos como negros, mulatos ou crioulos, de acordo com registros censitários em órgãos governamentais da Louisiana. Os antepassados vieram do Haiti. Sua descendência branca provém da França, da Itália e da Espanha.
A eleição do primeiro Papa nascido nos Estados Unidos foi vivamente festejada, com foguetório e sessões de Jazz, nas comunidades negras católicas de Nova Orleans.
Nos Estados Unidos, a lei de uma única gota de sangue (One Drop Rule) vigente no século XIX, prevalece entre os racistas ainda nos dias atuais, embora tenha sido abolida em 1980.
A legislação evidencia os rigores do sistema birracial americano e sua proximidade com os nazistas alemães, estabelecendo que basta uma tataravó negra para determinar, para a eternidade, a raça da pessoa. Ainda que loura de olhos azuis.
Você pode experimentar o amargor do drama racial alimentado pelas políticas racistas do governo de Donald Trump, assistindo ao filme Imitação da Vida, de 1959, dirigido por Douglas Sirk. Uma obra prima.
O mea-culpa papal abre um convite para que os pesquisadores aprofundem seus estudos sobre o envolvimento da Igreja Católica com o flagelo da escravidão.
O jornalista e escritor paranaense Laurentino Gomes, nascido em 1956 na cidade de Maringá, já vem trilhando esse caminho. Sua trilogia “Escravidão” destrói a lenda de que no Brasil os escravizados eram tratados melhor que nos Estados Unidos.
O autor contou à BBC em 2021 que a violência grassava de forma corriqueira em nosso país. “O escravo que fugisse era marcado com ferro quente, com a letra F no peito ou sobre o ombro, e poderia ter a orelha cortada”.
Em Minas Gerais, onde, segundo Tancredo Neves, o primeiro compromisso é com a liberdade, os vereadores da Câmara Municipal de Mariana discutiram, informa Laurentino, “a possibilidade de cortar o tendão de Aquiles para quem fugisse mais de uma vez”. Logo em Mariana, a Cidade dos Bispos.
No livro “Escravos da Religião”, publicado pela Appris Editora, também do Paraná, o historiador Vitor Hugo Monteiro Franco, da Universidade Federal Fluminense, mostra como o pedido de perdão papal faz todo sentido. A escravidão era algo tão banal que papas e bispos fechavam os olhos ao comportamento dos conventos religiosos proprietários de seres humanos, feitos, segundo a encíclica, à imagem de Deus.
Os monges beneditinos brasileiros chegaram a acumular 4 mil escravos em suas fazendas fluminenses de cana de açúcar, conforme Vitor Hugo Monteiro Franco levantou nos arquivos do Mosteiro de São Bento, fundado em 1590 no Rio de Janeiro. Para efeito de comparação, a Refinaria Gabriel Passos da Petrobrás, instalada em Betim, na Grande Belo Horizonte, emprega atualmente um total de 3 mil trabalhadores fichados.
As anotações dos ecônomos do mosteiro indicam que no século 19 o patrimônio dos frades contava com 700 escravizados na fazenda de Campos dos Goitacazes e 300 na propriedade de Jacarepaguá. Em Iguaçu, mais 130 cativos. Na fazenda de Cabo Frio, dois monges foram presos por espancarem, até a morte, um escravo.
Em 1871, os beneditinos alforriaram os escravos “da religião”, como eram nomeados legalmente os escravos da Ordem de São Bento, antecipando-se em 17 anos à abolição ocorrida em 1888.
Nos Estados Unidos, os jesuítas envolveram-se em escândalos parecidos que atormentam a consciência dos seguidores de Santo Inácio de Loiola, empenhados hoje em políticas de reparação dos seus crimes e compensação financeira aos familiares das vítimas.
Em 352 páginas, a jornalista Rachel L. Swarns relata a tragédia ianque no livro “Os 272: as famílias que foram escravizadas e vendidas para construir a Igreja Católica Americana”. A venda de mulheres, crianças e homens a fazendeiros sulistas da Louisiana foi feita em 1838 pela direção da Universidade de Georgetown, mantida pelos padres jesuítas em Washington, DC, como forma de capitalizar aquela que é considerada a mais antiga instituição católica de ensino superior nos Estados Unidos.
Naquela mesma época, o direito de escravizar colocou em duelo teológico dois missionários portugueses da Congregação da Missão de São Vicente de Paulo, fundadores do Colégio do Caraça, nas serras de Minas Gerais.
Em 1840, o padre Antônio Ferreira Viçoso, superior geral dos padres lazaristas no Brasil, posicionou-se contra a escravidão, defendida por seu amigo e companheiro de viagem para o Brasil, o padre Leandro Rebello Peixoto e Castro.
Padre Viçoso rebateu no livrinho “Escravatura, ofendida e defendida”, de 60 páginas, um texto intitulado “Escravatura” atribuído ao Padre Leandro, diretor do Caraça, que legitimava a escravidão.
Mais tarde, eleito bispo de Mariana, Dom Antônio Ferreira Viçoso proibiu a ordenação de padres que fossem donos de escravos. Em 1848, ele acolheu no seminário o alfaiate negro Francisco de Paula Victor, de 21 anos de idade, morador na cidade mineira de Campanha, filho da escravizada Lourença Maria de Jesus e de pai de nome desconhecido.
Dom Viçoso ordenou-o sacerdote, para espanto de muitos. Enviou-o para Três Pontas, no Sul Minas. Lá o Padre Victor foi vigário por 53 anos e ali morreu em 1905, aos 78 anos de idade. Rejeitado, inicialmente, por ser negro, o pároco cativou a admiração popular, por suas virtudes e dedicação aos pobres. O Papa Francisco honrou-o com o título de beato, em cerimônia realizada no aeroporto da cidade em 2015 e presidida pelo cardeal Angelo Amato, então Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos.
No Vaticano, a canonização de Dom Viçoso aguarda um empurrão da Santa Sé. Pode ser que o processo de santificação do Bispo de Mariana, que passou a vida cicatrizando as escaras da escravidão no Brasil, volte a merecer a atenção da Basílica de São Pedro, no momento que o próprio Romano Pontífice tocou, com o Anel do Pescador, as chagas escalavradas nas costas de Deus pelos chicotes dos homens.
J.D. Vital é jornalista e escritor, autor do livro “Morte em Cocais”, à venda na Livraria Ramalhete, localizada na Rua Pernambuco, 1.000 – Savassi, BH.



