Um asteroide que cai (por Luís Giffoni)

O que você faria se os astrônomos anunciassem a queda iminente de um asteroide bem no [...]

O que você faria se os astrônomos anunciassem a queda iminente de um asteroide bem no coração de Belo Horizonte? Correria até uma igreja para rezar? Entregaria sua casa para os pobres? Xingaria o banqueiro que anda ameaçando protestar sua dívida em atraso? Fugiria para a Austrália, para um lugar chamado Monte Isa, nosso antípoda no Hemisfério Sul, onde teríamos, em tese, o mundo inteiro para amortecer o choque? Roubaria um foguete e decolaria para a Lua? Encheria a cara, daria uma banana para o patrão, transaria até o derradeiro minuto, leria Macunaíma?

Depois dessas rochas que andam tirando raspão na Terra, depois que se descobriram cento e oito asteroides potencialmente capazes de torrar a civilização, prepare-se: a asteroidefobia vai disparar. Muitos construirão abrigos contra a queda do céu em nossas cabeças, mais robustos que os antiatômicos. Outros pararão de olhar para as estrelas, porque uma delas pode estar aumentando de tamanho a cada noite. Picaretas dirão que o Juízo Final está próximo e, dessa vez, é pra valer. Como falta juízo no planeta, outros espertalhões, liderados por Hollywood, faturarão dinheiro com o medo dos mais suscetíveis.

Não é nossa a primazia do pavor de antever a queda do firmamento. Antes de Cristo, o povo de Li, na China, se convenceu de que a hecatombe estava para acontecer, e ninguém sobreviveria. Paralisado pelo boato, o povo de Li se rendeu à expectativa do fim. Ninguém mais trabalhou, ninguém mais plantou, todos morreram de fome. Sim, acertou quem previu o extermínio.

Aguarde, portanto, muitos anúncios de colisões. Um objeto que passe além da Lua causará um deus-nos-acuda. Todos nos familiarizaremos com o nome impronunciável daquela cratera no México onde se teria espatifado o objeto que extinguiu os dinossauros. Os catastrofistas relembrarão o cometa que arrasou a Sibéria no início do Século 20. Nossos ufanistas citarão o gigantesco bólido que teria atingido a Amazônia na década de 1930, nunca encontrado. Vai ver, uma anaconda o engoliu.

A possibilidade de um asteroide destruir a civilização é tão remota que, antes de ocorrer, pereceríamos com um raio, um avião e um prédio na testa, os três caindo ao mesmo tempo. Não existe tanta coincidência – nem azar.

Suponhamos, contudo, que o céu nos envie o asteroide do fim do mundo, mirando justamente o coração de Belo Horizonte, a Praça Sete. Nesse caso, eu pegaria uma cadeira bem confortável e esperaria sentado este grande momento. Deve ser fantástica a chegada da bola de fogo através da atmosfera, queimando justos e injustos. Imagino a alegria dos pupilos de Nostradamus, gritando para os incréus; “Viram só? Nós estávamos certos!”

Vou contar um segredo. Só aqui entre nós. Acho que um asteroide vai destruir o mundo no ano 3000. Veja bem. Três é o número da Trindade, é um número cabalístico, é o número dos lados de um triângulo. Não é coincidência, é futurologia certeira. Tenho tanta certeza do fim do mundo no ano 3000, que comecei a construir um bunker e a estocar água e comida. Não quero ser pego desprevenido.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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