Os votos que faltam (por Glauco Saraiva)

Tenho percebido um interesse crescente pelos assuntos políticos nos mais diferentes segmentos da sociedade [...]

O dilema do indeciso

Dizem que o brasileiro vota com a emoção. Concordo apenas em parte. Tenho percebido um interesse crescente pelos assuntos políticos nos mais diferentes segmentos da sociedade. As dificuldades do cotidiano, a mobilização social, a militância e o acesso cada vez maior à informação, apesar da disseminação de notícias falsas, parecem contribuir para um despertar da consciência política, ainda em amadurecimento. Isso não significa que a emoção tenha perdido sua força. A identificação com a personalidade dos candidatos continua exercendo grande influência nas escolhas eleitorais, muitas vezes se sobrepondo à avaliação de suas propostas e realizações.

Nesta última semana antes do segundo turno, há uma parcela expressiva do eleitorado que merece atenção especial: aqueles que não compareceram às urnas, votaram em branco, anularam o voto ou ainda não decidiram em quem votar. São milhões de brasileiros que, por diferentes razões, podem influenciar o desfecho da eleição. Seria ingênuo imaginar que todos compartilham os mesmos sentimentos ou chegaram à ausência de uma escolha por caminhos semelhantes.

No primeiro turno, cerca de 33,4 milhões de eleitores se abstiveram, enquanto quase seis milhões votaram em branco ou anularam o voto para presidente. São números impressionantes, sobretudo quando comparados à pequena diferença de votos entre os dois finalistas. Por trás dessas estatísticas existem histórias, interesses, frustrações e maneiras distintas de compreender a cidadania.

Não podemos confundir quem vota em branco ou anula conscientemente seu voto com aquele que simplesmente não comparece. O primeiro participou do processo, mas decidiu não conceder seu voto válido a nenhum candidato. O segundo pode ter se ausentado por escolha ou impedimento. Também há quem tenha anulado por engano. Nenhum desses comportamentos se converte em voto válido, mas as motivações são diferentes.

Entre os que ainda podem reconsiderar suas posições, encontramos vários perfis.

Há o indeciso propriamente dito, que reconhece qualidades e defeitos nas alternativas disponíveis, mas não consegue estabelecer qual delas merece sua confiança. Pode acabar decidindo por alguma identificação emocional, por um detalhe que o aproxime de um dos candidatos ou pela conclusão de que, embora não exista uma candidatura perfeita, uma das opções apresenta riscos maiores que a outra.

Há o eleitor órfão de candidatura, que participou do primeiro turno, mas viu sua escolha eliminada. Agora precisa decidir se alguma das alternativas restantes merece seu apoio. Diferente dele é quem rejeita conscientemente os dois finalistas, por considerar que nenhum representa seus princípios. Essa rejeição pode nascer de uma avaliação cuidadosa, e não necessariamente da falta de interesse pela política. Ainda assim, ele pode, nesse último instante, pela crescente tensão, perceber que sua rejeição tem mais razão de ser de um lado do que do outro.

O desesperançoso acumulou decepções e já não acredita que a política possa transformar sua realidade. Para ele, promessas perderam o valor, mas diferenças concretas entre os projetos de governo poderiam despertar novamente algum interesse. O apático demonstra pouco envolvimento com os assuntos públicos e, em muitos casos, só se mobiliza diante de estímulos externos. Há o autodeclarado apolítico, que procura manter distância das disputas partidárias, embora possa ter opiniões bem definidas sobre os problemas nacionais.

Outros transformam a abstenção em protesto. É o cidadão que pretende utilizar sua ausência como um chicote contra a classe política, acreditando que a recusa em participar possa expressar sua revolta. Há também aquele que lava as mãos, não exatamente por desconhecer as alternativas, mas por desejar manter-se livre de qualquer compromisso com o resultado. Prefere conservar o conforto de poder condenar o vencedor sem ter contribuído para sua escolha.

Existem os que simplesmente não atribuem importância suficiente ao voto para enfrentar filas, deslocamentos ou pequenos inconvenientes. Para alguns, isso pode revelar uma compreensão ainda limitada das responsabilidades da vida coletiva. Para outros, as dificuldades são reais: problemas de saúde, trabalho, distância ou falta de transporte. Entre os idosos, cujo voto é facultativo a partir dos 70 anos, podem coexistir limitações físicas, desilusão acumulada e o desejo de continuar participando. A idade não determina, por si só, convicções políticas. O brasileiro que hoje tem 75 anos viveu experiências históricas capazes de produzir tanto posições conservadoras quanto progressistas.

Esses perfis não esgotam as possibilidades nem são mutuamente exclusivos. O desesperançoso também pode ser um eleitor bem informado; o apolítico pode estar indeciso; o revoltado pode ter razões consistentes para rejeitar as alternativas.

Os votos ausentes, brancos, nulos ou destinados a candidaturas derrotadas não pertencem naturalmente a nenhum dos finalistas. As campanhas precisarão disputar esses votos com habilidade, reconhecendo as particularidades de cada grupo.

Um eleitor pode considerar a segurança pública sua maior preocupação. Outro coloca em primeiro lugar a preservação dos direitos sociais. Alguns receiam o descontrole das contas públicas; outros temem o enfraquecimento das instituições democráticas. Há quem priorize o combate à corrupção, a estabilidade econômica ou a posição do Brasil diante de uma ordem internacional em transformação. Essas preocupações não pertencem exclusivamente à direita ou à esquerda. O que varia são as soluções consideradas mais adequadas e a confiança depositada em quem promete executá-las.

Existem diferenças que ultrapassam em muito a simpatia pelos candidatos. Na política externa, por exemplo, uma vitória de Flávio Bolsonaro aponta para maior aproximação com os Estados Unidos e governos conservadores, enquanto a continuidade de Lula favoreceria a manutenção de uma diplomacia multilateral, com destaque para os BRICS e as relações com o Sul Global. Nenhum desses caminhos garante, por si só, melhores resultados. É preciso avaliar os benefícios, os riscos e o grau de autonomia que o Brasil poderá preservar diante das grandes potências. Em um mundo cada vez mais pressionado por disputas comerciais, tecnológicas e estratégicas, essas escolhas podem ter consequências duradouras.

O desgaste provocado por escândalos de corrupção e pelos tradicionais arranjos políticos em troca de cargos e favores pode levar à impressão de que todos são farinha do mesmo saco. A semelhança de práticas, porém, não torna iguais todas as propostas, prioridades e consequências de governo.

Partidos mudam, alianças se desfazem e antigas rivalidades dão lugar a novas conveniências. O próprio Partido Liberal, hoje associado ao bolsonarismo, integrou a chapa que levou Lula à Presidência em 2002, indicando José Alencar como vice. Nossa história política está repleta de aproximações entre adversários de ontem e afastamentos entre antigos aliados.

Se as circunstâncias se alteram, por que o eleitor deveria permanecer preso a uma fidelidade incondicional, seja a um clã, a uma figura ou a um partido?

Para mim, o cidadão deve exercer o papel de juiz, não de militante de quem quer que seja. Isso não desqualifica a militância, que tem seu papel legítimo numa democracia. Mas nem todo eleitor precisa ser militante. Mesmo quem milita deve reconhecer as transformações da realidade, assim como fazem as próprias lideranças políticas. A lealdade aos princípios não exige fidelidade permanente a partidos e candidatos. Muitas vezes, é justamente essa lealdade que justifica mudar de posição.

O voto pode ser mais que uma declaração de identidade. É também um exercício de julgamento e participação.

Uma justificativa frequente para a abstenção merece atenção: que importância pode ter um único voto entre milhões?

O argumento parece razoável quando observado isoladamente. A probabilidade de um voto individual decidir sozinho uma eleição nacional é extremamente pequena. Se o eleitor considera tão reduzida sua influência sobre o resultado, por que carregar o peso de imaginar que será pessoalmente responsável por colocar o país em maus lençóis? Poderia exercer tranquilamente seu julgamento, escolhendo a alternativa que considera melhor ou menos prejudicial, sem assumir para si a responsabilidade pelos atos futuros de quem vier a governar.

A contradição maior aparece quando levamos esse raciocínio ao coletivo. Se todos considerassem seu voto insignificante e ninguém comparecesse às urnas, o próprio processo eleitoral ficaria inviabilizado. O que parece irrelevante na escala individual ganha outra dimensão quando multiplicado por milhões.

É no acúmulo do pequeno que o grande toma forma. Emerge.

Numa disputa apertada, uma parcela relativamente pequena do eleitorado pode alterar o resultado. Aqueles que ainda não definiram sua posição ou podem reconsiderar a ausência no primeiro turno tornaram-se alvo de intensa mobilização.

O voto de quem demora a decidir não vale matematicamente mais que o de quem escolheu meses atrás. A importância coletiva dessas decisões tardias, contudo, fica mais evidente quando a diferença entre os candidatos é pequena. O cidadão que considera desprezível sua participação pode não ter percebido que agora é procurado pelas campanhas justamente porque a soma de milhões de escolhas individuais pode modificar o resultado.

Os dois lados sabem disso. Buscam os eleitores de candidaturas derrotadas, os indecisos e os que ficaram de fora da primeira votação. Com menos cargos em disputa, o segundo turno será mais simples e rápido, podendo reduzir filas e pequenos obstáculos que desestimulam parte do eleitorado.

Minha intuição é que veremos uma diminuição da abstenção, diante da facilidade de votar e da pressão das campanhas para mobilizar os eleitores. A experiência recomenda cautela. Em 2018, a abstenção aumentou no segundo turno; em 2022, diminuiu discretamente. A ausência de disputas para governador em boa parte do país pode reduzir o envolvimento das estruturas políticas locais. Resta saber como esses fatores se combinarão desta vez.

A mobilização eleitoral, por si só, não representa necessariamente um amadurecimento político. Alguém pode comparecer por entusiasmo, medo, pressão do grupo, conveniência ou após uma reflexão cuidadosa. A urna registra o voto, não o caminho percorrido para chegar a ele.

O cidadão que se abstém não deixa de sofrer as consequências do governo eleito. As decisões sobre segurança, economia, saúde, educação e direitos alcançam igualmente os que votaram, os que anularam e os que permaneceram em casa.

Seria injusto responsabilizar o abstencionista pelos erros do vencedor. A responsabilidade pelos atos de governo pertence a quem os pratica. Não se pode dizer que alguém abandonou a cidadania apenas porque deixou de participar de uma eleição. Existem muitas outras formas de contribuir para a sociedade. Mas é preciso ter a consciência de que o direito de não escolher não nos retira da realidade que será construída pelas escolhas dos demais.

No segundo turno, a avaliação das alternativas ganha contornos mais definidos. O eleitor já não precisa comparar todos os projetos inicialmente apresentados, mas examinar as consequências possíveis de duas candidaturas. É preciso olhar além das simpatias e rejeições pessoais, confrontando promessas com realizações, histórico político e condições reais de governabilidade.

Na economia, interessa saber de onde virão os recursos para sustentar o crescimento, controlar as contas públicas e preservar os serviços essenciais. Na segurança, quais propostas oferecem condições concretas de enfrentar o crime organizado, inclusive seu financiamento, sem comprometer garantias legais? A proteção social precisa ser examinada tanto pela importância dos direitos quanto pela capacidade de financiá-los. Na política externa, devem prevalecer os interesses nacionais, não apenas as afinidades ideológicas de cada candidato.

O Congresso eleito para a próxima legislatura apresenta nítido avanço da direita. O PL deverá ter a maior bancada nas duas Casas, com 121 deputados e 28 senadores. Essa configuração pode produzir situações bastante diferentes, dependendo de quem ocupar o Planalto.

Se Lula vencer, encontrará um Congresso majoritariamente mais conservador, capaz de funcionar como contrapeso ao Executivo. A necessidade de negociar pode favorecer decisões mais moderadas, mas também dificultar a aprovação de projetos e ampliar a dependência dos tradicionais acordos políticos. Existe o receio de que a governabilidade continue sendo construída pela distribuição de cargos, verbas e favores, práticas que tanto contribuíram para desgastar a confiança da população. Isso acontece para os dois lados, mas pesa mais para o lado em desvantagem.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro abriria outra possibilidade. Com maior afinidade ideológica entre o presidente e boa parte do Legislativo, haveria condições políticas para uma tramitação menos conflituosa das propostas de governo. Isso poderia facilitar reformas e dar mais agilidade às decisões. A concentração de influência em um mesmo campo político também exige cuidado. Até que ponto a convergência entre Executivo e Legislativo favoreceria a governabilidade sem enfraquecer a fiscalização, o debate e a independência das instituições? Ainda mais com o histórico passado, nas falas e ações de seu pai, quando foi presidente. O fortalecimento da direita no Senado torna essa preocupação especialmente relevante diante de suas atribuições sobre o Judiciário.

Em nenhum dos cenários o presidente teria liberdade absoluta para governar. O Centrão continuaria desempenhando papel importante, em meio a práticas de negociação que tanto desgastam a política brasileira. Suas alianças nem sempre seguem fronteiras ideológicas ou interesses políticos, mas geralmente favorecem interesses particulares de pequenos grupos. Devemos estar de olho nas condições de negociação, nos limites impostos ao Executivo e nos riscos decorrentes dessas relações.

Um Congresso adversário pode representar um equilíbrio saudável, mas também se tornar instrumento de bloqueio ou barganha. Um Congresso aliado pode ajudar o país a avançar, desde que a facilidade de governar não se transforme em licença para abusos. E o histórico passado é complicado.

A corrupção continua sendo outro obstáculo à confiança pública. Escândalos sucessivos, investigações envolvendo diferentes grupos políticos e a sensação de que quase tudo termina em acordos de conveniência alimentam a descrença. A indignação precisa manter algum compromisso com os fatos. Denúncias, provas, condenações, absolvições e anulações processuais não são a mesma coisa. O rigor exigido para os adversários deveria ser o mesmo aplicado aos aliados.

Ninguém precisa fazer campanha contra o próprio candidato a cada notícia desfavorável. Mas varrer para debaixo do tapete sinais claros de erro daqueles que apoiamos é uma covardia cara. A condescendência ajuda a perpetuar práticas que depois condenamos no campo adversário. O acúmulo dessas decepções merece ser investigado entre as razões do desencanto político.

A confiança em quem apoiamos, assim como em nós mesmos, não deveria depender da crença de que nunca erramos. Na política, como no xadrez, estamos sujeitos a erros. A experiência e o estudo permitem reconhecê-los e reduzi-los. Ter convicções também exige disposição para revê-las quando os fatos mudam.

Na polarização, escolhas políticas que deveriam permanecer sujeitas à avaliação acabam se transformando em compromissos pessoais dos quais parece vergonhoso recuar. Mudar de opinião passou a ser visto por muitos como fraqueza ou traição, mesmo quando a mudança resulta de reflexão.

O dilema do indeciso não se limita a escolher entre dois candidatos. Envolve a liberdade de reconsiderar posições, a responsabilidade pelas próprias decisões e a consciência de que, participando ou não, continuaremos sujeitos às consequências do resultado.

Quem ainda não escolheu pode ter razões legítimas para hesitar. Merece ser ouvido, informado e respeitado, não tratado como alguém incapaz de compreender a política ou como um voto à disposição do oportunismo das campanhas. Mas, é preciso também que esse cidadão reavalie se as condições para escolher entre projetos e consequências tão diferentes não mereceriam uma última reflexão, e, quem sabe, uma reconsideração quanto a sua participação.

O eleitor é um agente de transformação do futuro. Deve ter plena liberdade para escolher, inclusive para se abster. Essa liberdade, no entanto, não diminui a importância de refletir sobre as diferenças entre os caminhos em disputa. Especialmente neste momento, em que divergências profundas acabam encobertas pelo desgaste provocado por episódios semelhantes nos dois campos políticos, é preciso redobrar a atenção e o compromisso com o próprio julgamento.

Glauco Saraiva é Escritor.

Compartilhe esse artigo: