O “Conto da Peruca” de Zé Alberto, o Paraíba! (por José Emílio)

Um ditado que ficou muito conhecido na era da comunicação diz que “a propaganda é a alma do [...]

Um ditado que ficou muito conhecido na era da comunicação diz que “a propaganda é a alma do negócio”. Pode até ser verdade, mas quando se encontra um consumidor exigente, o dono do produto, às vezes, terá problemas se ele não satisfizer por completo o cliente.

Foi o que aconteceu com o Zé Alberto, o Paraíba que sentindo o avanço de sua calvície, procurou um desses institutos de beleza que anunciam a milagrosa volta dos cabelos.

Por alguns instantes, Zé esqueceu o retrato da família que ficou no nordeste. As lições de genética foram pro brejo pois na última festa entre parentes que ele participou, na cidade de Pedra Lavada no interior da Paraíba, seu avô paterno, o coronel Xicó, notou as suas preocupações capilares e mostrou-lhe que todo seu povo era pródigo nesta deficiência.

Definitivamente instalado aqui no sul, Zé, um profissional liberal em começo de carreira na área de informática, foi mordido pela mosca da vaidade. Inicialmente usou alguns produtos que as pessoas lhe indicavam. Eram chás, banhos, raízes, massagens no couro cabeludo. Até injeção o nosso Zé Paraíba permitiu, só que o resultado!..

De tanto pelejar com isso, ele acabou deixando esse assunto de lado por uns tempos. Nessa época, até família o danado conseguiu constituir. Passado o entusiasmo inicial do matrimônio e da cria dos três rebentos, ele voltou à tecla antiga quando, um dia, distraído, em frente a uma televisão ligada:

– tibuuumm…

Era um ex- calvo pulando de cabeça numa piscina para, depois, controlar uma bola de futebol na testa nova.

Os olhos do nosso amigo chegaram a brilhar. Ao anoitecer, Zé Alberto adormeceu e teve sonhos cabeludos. No outro dia, ao acordar, não teve dúvidas e ligou para o local de trabalho, dizendo que chegaria mais tarde pois tinha uma consulta médica pela manhã.

Zé chegou ao instituto de beleza, fez os exames e, duas horas depois o sonho estava realizado. As madeixas de outrora estavam de volta. Entusiasmado e cheio de razão, foi para o trabalho a fim de mostrar a boa-nova aos colegas.

Assim que chegou, foi logo caricaturado por um colega que tinha dons artísticos. O desenho passou de mãos em mãos, sem que o nosso querido paraibano, sequer, desconfiasse. Ali, naquele ambiente, houve uma troca meio surda e parece que o nosso querido paraibano nem percebeu.

Ele ria de felicidade e os colegas riam dele. Nunca, antes, naquela empresa, alguém foi tanto ao banheiro como o nosso Zé naquele dia. Fazer o quê não se sabia apenas desconfiava-se pois lá havia um espelho, e no final do expediente o prezado foi flagrado dando uma ajeitadinha no produto novo.

Às seis em ponto, Zé Alberto foi prá casa. Na rua, próximo ao prédio onde ele morava, a primeira decepção. Do meio da garotada que jogava futebol, ouviram-se as palavras peruca e peruquento…

A segunda foi em casa onde, ao abrir a porta, os três filhos que assistiam televisão na sala, saíram correndo para se protegerem na barra da saia da mãe. Ela, por sua vez foi logo dizendo:

– “Que coisa mais ridícula!”

Por esta o Paraibano não esperava. Ele que imaginara coisas para aquela noite, sentiu, diante da reação da mulher, que não teria muita chance. Foi dormir à seco tendo sonhos calvos, pois diante de tantas decepções só pensava em desfazer o que foi feito.

O custo – vaidade era mais ou menos o equivalente ao seu salário bruto, fato que a patroa sequer imaginava. Nosso Zé, muito preocupado, perdeu o sono várias vezes matutando um jeito de recuperar a grana investida em sua nova aparência. As palavras peruca e peruquento, ouvidas quando ele passou perto dos meninos que jogavam bola não saiam mais da sua cabeça, tornando-se assim o argumento central para o dia seguinte.

Ele quase acordou a mulher treinando parte da conversa que estava arquitetando. Falava bem baixinho quase num sussurro:

– “Eles me colocaram um perucão arretado na cabeça e na televisão, a propaganda falava em entrelace capilar! Oxente, fui enganado e vou mostrar prá esses cabras o que é bom prá tosse!”

A primeira providência, ainda cedo, foi procurar o tal Instituto de beleza a fim de recuperar o dinheiro, devolvendo a peruca. Sem sucesso, foi orientado a ir até à defensoria do consumidor do município.

De volta às origens capilares e com a danada debaixo do braço, o paraibano ficou todo prosa com os planos traçados pelo advogado, Dr Mundéu. Este abraçou a causa com a maior satisfação, pois o caso era inédito na cidade, quiçá no país! Montou-se todo o processo e, como já se previa, no dia da audiência, deu o maior IBOPE.

A imprensa prestigiou e Zé foi muito entrevistado; enfim ele teve seus quinze minutos de fama. E, cá pra nós, ele bem que mereceu. As partes se posicionaram em frente ao juiz e o paraibano falou com vontade e sem medo:

– “Doutor, eu procurei fazer o enterlace por dois motivos: primeiro por vaidade, mas o que pegou mesmo, foi a proteção do meu couro cabeludo contra as intempéries da natureza. O negócio, Doutor, já começou errado pois eles me colocaram num cubículo de cabeça para baixo e era uma dor lascada. O couro cabeludo parecia estar pegando fogo. Aquilo ali era mais uma sala de tortura do que qualquer outra coisa e ainda me pediam para ficar quieto pois estava sendo realizado o entrelace dos fios”.

O juiz já prevendo o inusitado do processo tinha levado um lenço. Simulando uma gripe, interrompia as declarações de Zé no auge da emoção, indo ao banheiro soltar boas gargalhadas. Afinal das contas, juiz também é gente.

O paraibano dava continuidade com a sua arenga:

− “O dia que fiz esta peruca, seu Doutor, a notícia se espalhou feito rastro de pólvora e até os colegas da empresa no interior do estado queriam conhecer o tal do peruquento. Procurei a tal empresa prá fazer um acordo, Doutor, e eles não abriram para maiores negociações. Só propuseram a devolução do dinheiro em cortes de cabelo até o total que eu havia pago. Agora assunta só, seu Dotô, cortar o quê aqui?”

Diante de tão dramático e emocionante depoimento e à luz da lei, o meritíssimo juiz bateu o martelo, pronunciando a sentença curta e grossa:

– “É peruca mesmo!”

Condenou a empresa a indenizar o nosso consumidor de beleza. O José Alberto, vulgo Paraíba, voltou a sorrir como dantes, provando que a propaganda muitas vezes não tem alma e que: se a satisfação não for garantida, então “dê cá” o meu dinheiro de volta.

É assim que se diz lá na terra dele!

José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista

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