A arriscada submissão de Ancelotti (por Erasmo Angelo)

Sobrou para Ancelotti. O circo que a CBF montou para a convocação da Seleção Brasileira terá agora, [...]


Sobrou para Ancelotti. O circo que a CBF montou para a convocação da Seleção Brasileira terá agora, como mestre de cerimônias, o treinador italiano. Dentro dele estarão os jogadores lobistas, comandados pelo volante Casemiro, que triunfaram na poderosa pressão em favor de Neymar.

E do lado de fora do circo ficarão os que se envolveram e completaram a pressão sobre o treinador, os conhecidos ex-colegas de gramado do jogador e que agora assumem bancadas em programas de TV como “analistas”. E não faltam no grupo os conhecidos artistas, aqueles que adoram aparecer em copas mundiais e se tornam “especialistas” em futebol, mas só de quatro em quatro anos. Há também os “influenciadores” e alguns jornalistas lobistas.

Nos últimos vinte dias antes da convocação, esses grupos formaram uma corrente de pressões sobre o treinador em favor de Neymar, em um lobby que jamais se viu igual na história do futebol brasileiro. Um tema replicado por atletas garantidos previamente na seleção como Casemiro, Danilo, Raphinha, Marquinhos, Alex Sandro e Vini Jr., em dóceis entrevistas, nas quais não havia sequer a preocupação de camuflar a lobby.

Não se sabe se por temor ou convicção, Ancelotti cedeu e assumiu os riscos, parecendo adotar uma conduta passiva, entendida por alguns como submissão. Ou, quem sabe, dependência de alguns jogadores mais amigos e que integram sua lista de convocados.

Ancelotti já não carrega mais a quase unanimidade da sua chegada para assumir a seleção, há um ano, quando a torcida só falava em esperança e ele mesmo projetava um futebol brasileiro voltado para o futuro. Isto foi entendido como um grande projeto de renovação e em oposição ao viciado sistema de convocações e métodos de trabalho ultrapassados.

Mas, dentro do circo armado para a convocação da seleção para a Copa, dia 18 último, Ancelotti achou mais cômodo dar uma volta ao passado recente. Preferiu ter a seu lado, por gosto ou emergência, um punhado de jogadores retirados do baú de listas anteriores, a maioria sem êxitos na seleção e com desempenhos ruins. Entre os 26 convocados por Ancelotti, 15 deles estavam naquela barca furada comandada pelo técnico Tite na Copa do Mundo do Catar, há quatro anos.

Soma-se a isso, a polêmica volta de Neymar à seleção, festejada ruidosamente por aquela torcida que só liga para futebol de quatro em quatro anos, como se o Brasil estivesse vendo ressurgir, em um passe de mágica, o Neymar de 10, 12 anos atrás, quando ele era um astro mundial do futebol.

Nada disso. O Neymar que Ancelotti aposta todas as fichas para a Copa que está chegando, não joga nada há quatro, cinco anos. Saiu do futebol árabe (onde raramente atuava) e veio para o Santos de graça. E por lá está deixando o clube santista quebrado financeiramente e sem apresentar nada de excepcional em campo. Nos últimos 11 jogos da equipe, atuou nove vezes e com atuações modestas, sempre poupando o físico, que já não o ajuda muito. Seu currículo mais recente aponta uma ridícula discussão com torcedores santistas e uma agressão a tapa ao colega de time, o jovem Robinho Jr., filho do ex-craque Robinho.

Como tanto já se noticiou, forte mesmo é o lobby em torno de Neymar, formado pelos conhecidos “parças” que o rodeiam. Possuidor de uma tremenda fortuna (fruto dos seus contratos), a simples convocação do jogador por Ancelotti já lhe foi bem gratificante pois significou quatro campanhas publicitárias, divulgadas por Neymar e sua equipe poucas horas após o treinador apresentar a lista dos 26.

O colunista Pedro Lopes, do UOL, em artigo do dia 20 último, dois dias após a convocação, revela: “Anteontem foram ao ar quatro peças de parceiros: Puma, Red Bull, Mercado Livre e Canção. Comerciais que foram gravados antes da certeza da convocação – alguns tiveram múltiplas versões para caso as coisas não saíssem como esperado – e ficaram engatilhadas para a hora do momento chave.” – O título da coluna do jornalista é bem sugestivo: “Neymar repete 2018 ao transformar convocação em produto publicitário”.

Depois do que se viu e ouviu nos dias que antecederam a convocação e ao se refletir sobre a pobre participação brasileira nas eliminatórias para a Copa, além das fracas atuações da seleção nos últimos amistosos, é válido indagar: dá para acreditar na tarefa de Ancelotti?

Bem, é para se ficar temeroso. Existe preocupação. Principalmente depois que ele aceitou se submeter a todo aquele ritual circense armado pela CBF e pela ação de lobistas. Ancelotti deixou interrogações sobre seu potencial de fazer a Seleção Brasileira ser o time da esperança. Melhor, então, é aguardar e ficar na coxia para ver como ele irá se virar com sua trupe.

Erasmo Angelo é Jornalista. Foi Redator de Esportes e Colunista do jornal Estado de Minas, Redator do Jornal do Sports/MG, apresentador e produtor na TV Itacolomi, TV Alterosa e Rádio Guarani. Foi presidente da ADEMG – Administração de Estádios do Estado de Minas Gerais, editou a Revista do Cruzeiro. Formado em História pela PUC/MG. Autor

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