O abandono da Liberdade (por Nestor de Oliveira)

Símbolo da cidade de Belo Horizonte, arquitetura e jardins inspirados na Belle Époque francesa, [...]

Símbolo da cidade de Belo Horizonte, arquitetura e jardins inspirados na Belle Époque francesa, referência da cultura e elegância de Minas Gerais, nossa Praça da Liberdade é, há tempos, vítima do abandono e desleixo, tanto pela prefeitura como pelo governo do estado. Outrora, desde sua inauguração, ali acontecia o “footing” da juventude da nova capital, romances se iniciavam, famílias de todas as classes sociais se encontravam naquela que foi a mais frequentada e mais bela praça da cidade. Nas tardes e noites da amena e segura capital, tempo em que o frescor das noites e temperatura não eram afetados pelo muro das construções de prédios que mudaram nosso clima, era comum o encontro de vizinhos, suas crianças e juventude marcarem encontro e conviverem como só possível, então, nas cidades do interior de Minas. Bem cuidada, fontes iluminadas a decorar as noites, coreto com eventos sociais e musicais, faz parte da memória intangível e afetiva de gerações. Nela, vinda da Afonso Pena, terminava a Avenida da Liberdade, outra preciosidade perdida, hoje João Pinheiro, a preferida da elite para a construção de seus palacetes, tornando ainda mais sofisticado o entorno da praça. Nos anos 70, em diante, seu charme era o encontro da juventude no Xodó, sorveteria que marcou época e ficou gravada na memória de gerações.

Hoje temos o desleixo, mato crescendo nos jardins, moradores de rua dormindo em seus sagrados bancos, mesmo durante o dia, lixo por todos os lados, grama e canteiros sem cuidados, fontes desligadas, sujas, sem água, coreto usado como dormitório e banheiro pelos abandonados da sociedade, roubos de celulares à luz do dia e a insegurança de seus resistentes caminhantes das manhãs e tardes. À noite não é mais frequentada, nem pelos seus moradores e vizinhos, tamanho o medo da violência que também lá fez morada. “Liberdade, liberdade, onde estás que não respondes?” Perguntaria outra vez Castro Alves, que em “Vozes d’Africa”, indignado contra a escravidão, clamava pela justiça divina. Hoje clamamos pela administração pública, omissa de tantos deveres, que não quer olhar nosso cartão postal, símbolo dos mineiros, assim como abandona tantos outros de seus deveres.

Mas nossa Liberdade resistirá. Centro cultural com inúmeros museus, apesar do abandono do prédio verde onde o governo do estado prometeu fazer, e não fez, o Museu das Artes Plásticas, atração turística e referência querida dos mineiros, não serão estes administradores públicos, incultos e despreparados para suas funções, que nos farão render às suas omissões. O prefeito, desnorteado com tantas prioridades, não consegue eleger e atuar sobre nenhuma delas, o governador, que tem tanto desprezo pela cultura quanto seu antecessor, está preocupado e só tem olhos para sua difícil reeleição. Curiosamente ambos elegeram como seus temas de administração “Prefeito Presente” e “Governo Presente” como seus slogans de comunicação. Por infeliz coincidência Minas Gerais e Belo Horizonte nunca tiveram tão incompetentes administradores, ao mesmo tempo, quanto os tem agora. Frequentador da Praça da Liberdade, indignado pelo seu abandono, fiz este artigo inspirado, e testemunha, da recente matéria do jornal “Estado de Minas”.

Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor

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