
Toda Copa promete uma guerra sem mortos. Para o Brasil, ultimamente, termina como autópsia.
Durante um mês, o mundo aceita olhar para o mesmo lugar. Países que quase nunca se escutam cantam seus hinos diante uns dos outros, povos separados por oceanos discutem a mesma jogada e desconhecidos encontram assunto apenas porque uma bola cruzou uma linha. Poucos acontecimentos conseguem reunir, ao mesmo tempo, memória, rivalidade, comércio, identidade, festa e beleza como uma Copa do Mundo.
Entramos no estádio, ao vivo ou com corações emprestados, carregando bandeiras, cantos de guerra, heróis e adversários. A vontade de derrotar o outro está viva, porém submetida a um campo demarcado, regras conhecidas e uma hora para terminar. Às vezes, um cartão é revertido por fora das linhas, mas, ainda assim, a crença no fair play e na chance de disputa honesta, de alguma maneira, se preserva. A guerra não desaparece. Ela chega de uniforme, aceita um árbitro e tenta produzir beleza. Até países que se hostilizam politicamente, inclusive em guerra, recebem a delegação adversária e escutam seu hino. Nem sempre com elegância. Ainda assim, estão ali, num campo onde a integridade do outro é preservada e vozes se fazem ouvir.
A Copa movimenta fortunas, reorganiza cidades, ergue estádios, produz propagandas e faz circular energia. Oferece aos governos algo que nem sempre corresponde à realidade de seus povos. Também cria aproximações verdadeiras. Por algumas semanas, uma pessoa aprende onde fica um país que antes era apenas um nome no mapa. Descobre um rosto, uma música, uma história. A bola não resolve conflitos, mas abre brechas por onde alguma curiosidade consegue passar. Cabo Verde realizou uma campanha fantástica, capaz de fazer o mundo inteiro espiar melhor o arquipélago que produz gente tão aguerrida e vibrante.
Esporte e arte pertencem a essa parte especial da experiência humana em que força, imaginação e disciplina podem se encontrar e encantar. São formas de elevar o espírito ao que ele merece alcançar.
Esta última Copa deixou, além das partidas, algumas lições. A principal, para mim, foi a vitória do jogo coletivo sobre a esperança depositada num salvador.
A Espanha reuniu jogadores de enorme valor individual, alguns muito jovens, outros já consagrados. Todos couberam dentro de um arranjo dinâmico. O time não foi construído para servir a um personagem. Cada jogador parecia saber o que fazer, onde aparecer e como reagir quando o imponderável se apresentava. Havia inteligência, intensidade, seriedade e uma confiança sustentada na coordenação, não numa convocação mística ao heroísmo.
A campanha mostrou isso até o último jogo. A Espanha sofreu apenas um gol em oito partidas e, na final, continuou produzindo mesmo quando seus principais nomes eram neutralizados. O técnico teve coragem de lançar, durante a prorrogação, Eric García e Martín Zubimendi, que ainda não haviam jogado um único minuto naquela Copa. Ninguém ali era figurante. O gol do título saiu aos 106 minutos, dos pés de outro jogador que começara no banco. A individualidade decisiva de nomes como Yamal floresce em uma estrutura que lhes oferece essa oportunidade. Assim, brilha ainda mais.
A fotografia de Messi dando banho no bebê que se tornaria a estrela espanhola é o casamento de eventos improváveis no tempo. Os memes do pós-jogo, além de divertidos, são lembretes da diversidade e da riqueza que a existência pode proporcionar. Fico imaginando a alegria do fotógrafo com a confirmação da final e com o direcionamento dos holofotes para seu belo trabalho. A foto estava lá, esperando essa final específica para rebrilhar, e aconteceu.
Fora de campo, o show do intervalo foi mais uma demonstração da capacidade americana de organização, criação de beleza e produção de recursos a partir de um evento. As crianças dançando e a palavra “amor” em destaque tocaram nossos corações. Poucos meses antes, durante a guerra do Irã, acompanhamos pelo noticiário outras crianças receberem uma bomba de presente dentro de uma escola primária. O endereço estava certo; o alvo, tragicamente errado. A fabricação era americana.
Não vejo nisso hipocrisia de um povo. Conheço os americanos, admiro sua capacidade de trabalho, criação e organização. O que assusta é a inconsequência de quem detém o botão vermelho e pode, à distância, transformar uma decisão equivocada em tragédia irreparável.
A Argentina, por outro lado, percorreu o caminho oposto ao da seleção rival. Chegou à final com grandes méritos, passando por situações que teriam derrubado seleções menos resistentes. Venceu Cabo Verde na prorrogação, virou contra o Egito depois de estar perdendo por dois gols quando restavam onze minutos, precisou novamente da prorrogação diante da Suíça e derrotou a Inglaterra com outra reação nos minutos finais. Foi uma campanha emocionante, aguerrida e profundamente argentina. Com certeza fez seu povo orgulhoso.
Messi, aos 39 anos, marcou oito gols e deu quatro assistências. Inúmeras vezes, seu talento retirou a equipe de lugares onde a organização já não encontrava saída. A cada nova salvação, porém, crescia a dependência. A genialidade resolvia o problema imediato, mas camuflava um maior.
A final revelou o preço dessa opção. A Espanha controlou Messi e impediu a Argentina de finalizar durante todo o tempo regulamentar. Quando o salvador foi neutralizado, o restante do time pareceu perder também parte de sua força e imaginação. Não faltaram raça, disciplina ou disposição. Faltaram caminhos.
Existe nisso uma implicação psicológica que interessa especialmente aos povos latino-americanos. A crença de que um homem excepcional resolverá aquilo que o conjunto não conseguiu organizar acompanha nossa história política, esportiva e até familiar. Esperamos o craque, o presidente providencial, o empresário iluminado, o chefe de um lar, alguém que dispense o trabalho lento de construir instituições ou distribuir responsabilidades. Alguém que centralize esperanças e coordenadas. Que possa ser elevado aos céus se tudo caminhar bem e responsabilizado, cuspido como Geni se tudo desandar.
Por essa razão, preferi a vitória da Espanha. Ela me pareceu mais instrutiva. Isso não reduz em nada a campanha da Argentina. Os jogadores chegaram ao limite físico e emocional, disputaram duas finais consecutivas e devolveram a seu povo a alegria de acompanhar uma equipe que luta até o último instante. Foram vice-campeões do mundo no futebol e campeões por irem além de seus limites, mesmo com uma programação equivocada, a meu ver. Questiono e aplaudo o trabalho técnico argentino ao mesmo tempo. A confusão após o apito final, com provocações e empurrões, é a única mancha na despedida. Mas um mau epílogo não apaga um grande livro, embora revele algo que precisa ser escrito de maneira diferente daqui para a frente pelos futebolistas sul-americanos. Perder com dignidade é parte da honra.
O Brasil, por sua vez, apresentou uma seleção de meninos enquanto outros países levaram homens. A diferença não estava na idade. Muitos dos nossos jogadores são adultos, pais de família, milionários e profissionais experientes. A meninice apareceu na postura, na fragilidade diante da pressão, na espera por uma solução vinda de fora.
O Menino Ney será cristalizado como símbolo, crucificado por uns, preservado por outros. A verdade é que o Neymar deixou de ser discutido apenas como jogador. Hoje é figura que alimenta a polarização política. Para alguns, o alinhamento ideológico serve como absolvição; para outros, autoriza a negação de um talento que sempre foi evidente. Nas duas situações, o futebol desaparece atrás da torcida política.
Provavelmente, Neymar carregará uma das tristezas mais profundas que podem acompanhar alguém talentoso: a suspeita de ter realizado menos do que poderia, embora tenha alcançado o que muitos outros sequer sonhariam. Conquistou muito, ganhou fortunas, realizou jogadas memoráveis e tornou-se artilheiro da seleção brasileira, sem nunca ajudar a levá-la, no entanto, a conquista mais desejada. Seu sucesso individual não se traduziu em vitória coletiva, nem no encantamento, na inspiração, na união e na esperança de nosso povo, e isso impacta negativamente em sua conquista individual. Eis a grande ironia. Ainda assim, a pergunta sobreviverá às estatísticas: até onde teria chegado com outro cuidado, outra disciplina, outras escolhas?
Mas, responsabiliza-lo pelo fracasso brasileiro parece além da conta. A insistência em transformá-lo na última esperança, mesmo depois de tantos problemas físicos e tantos anos sem uma sequência regular na seleção, revela algo maior. O problema não foi recorrer a Neymar. O problema foi o Brasil chegar a mais uma Copa ainda precisando recorrer a Neymar.
Contra a Noruega, a seleção teve apenas 35% de posse de bola, seu índice mais baixo numa partida de Copa desde o início dos registros, em 1966. A derrota por 2 a 1 eliminou o Brasil nas oitavas de final, algo que não ocorria desde 1990. Não fomos derrubados por uma fatalidade isolada, como a de 1982, chamada Paolo Rossi. Produzimos pouco, reagimos tarde e entregamos ao adversário a iniciativa que um pentacampeão costuma impor.
Dias depois, o espetáculo digital voltou a exibir publicidade, ostentação, festas, jogos e férias paradisíacas. Ninguém exige que jogador de futebol faça voto de pobreza ou transforme derrota em penitência pública. Porém, é importante a conexão entre representantes e representados. O brasileiro comum investe sempre na seleção sua alegria contagiante, mas teve a impressão de sofrer sozinho. Para os jogadores, a Copa pareceu mais um episódio da carreira. Para o torcedor, era uma possibilidade de reencontro com algo que já fez parte de sua identidade.
Restou uma sensação de humilhação e impotência. Não apenas por perder, pois a derrota pertence ao jogo. O que feriu foi a maneira: a incapacidade de assumir o destino, organizar uma resposta e lutar com a inteligência e a urgência que a ocasião exigia. Tal como na política, o pessimismo toma conta, pois parece difícil acreditar que as coisas possam mudar. Mesmo assim, podemos ainda pensar que rios muito poluídos no passado hoje podem receber um mergulho. O trabalho, no entanto, exige grande demanda e coordenação, sob liderança digna de confiança e pensamento focado em nossa sociedade. Para esse ovo ter alguma chance de eclodir precisaremos do trabalho e da consciência de cada um. Para exigir, para escolher e para participar no que for possível.
Nenhum caso está completamente perdido. Nunca. Se temos potência, temos o que transformar, o que não dá é continuarmos a desperdiçar.
Jogadores e políticos podem servir como espelhos nos quais um povo reconhece seus defeitos, seus vícios e seus desejos. Vivemos culpando aquilo que está fora de nós, e há realmente muito que consertar no Brasil. A precariedade das instituições, a desigualdade, a corrupção, a educação insuficiente e a violência não serão resolvidas por discursos sobre esforço individual. Ao mesmo tempo, nenhuma mudança coletiva se sustenta quando cada pessoa se considera dispensada de participar dela.
Uma seleção não reforma o caráter de um país. Seus símbolos, contudo, educam. Um jogador que retorna para marcar, um craque que aceita sair em vista da realização de uma estratégia, um reserva que entra preparado, um time que troca a glória individual pela jogada correta: tudo isso apresenta uma pequena lição de convívio.
John F. Kennedy formulou essa ideia em seu discurso de posse, em 1961: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você; pergunte o que você pode fazer por seu país.”
No Brasil, a frase precisa ser lida nos dois sentidos. O país deve responder pelo que faz — e pelo que deixa de fazer — por seus cidadãos. Cada cidadão também precisa perguntar que tipo de país ajuda a construir quando fura uma fila, abandona uma responsabilidade, transforma toda divergência em inimizade ou espera que alguém resolva sozinho aquilo que pertence a todos.
A confiança coletiva não nasce de uma campanha publicitária. Nosso complexo de vira lata tem se transformado em complexo de pulga. A confiança se forma em cada etapa cumprida, em cada regra respeitada, em cada escolha que não oferece vantagem imediata. Quem sabe se nos organizarmos melhor no extra campo voltemos a ser dignos daquela pequena alegria: disputar uma Copa do Mundo como protagonistas, e não comparecer apenas como figurantes vestidos com uma camisa pesada demais.
Antes fabricávamos Pelés, Garrinchas, Rivelinos, Zicos, Rivaldos, Kakás e Ronaldinhos. Hoje parecemos administrar uma fábrica de Peter Pans.
O que mudou? Onde foram parar nossa força, nossa criatividade e nossa capacidade de transformar improviso em construção coletiva?
O passado também teve irresponsabilidade, vaidade, cartolas corruptos, jogadores indisciplinados e derrotas vergonhosas. Garrincha jamais foi modelo de vida organizada. Romário nunca cultivou a imagem do atleta obediente. A final da Copa de 1994 pode ser considerada a pior de todos os tempos, tecnicamente. A nostalgia não pode falsificar a história. Aqueles jogadores, contudo, assumiam a responsabilidade de decidir. A irreverência não os impedia de compreender o peso da camisa nem de reconhecer o campo como palco.
Hoje, a infância prolongada tornou-se um grande negócio. O jogador vira patrimônio antes de se tornar adulto. Cercam-no empresários, assessores, patrocinadores, parentes, influenciadores e especialistas em imagem. Tudo é convertido em conteúdo e cada promessa, em valor de mercado. A celebridade acontece antes da formação do homem.
O Brasil continua sendo a maior fonte de jogadores expatriados do mundo. Um levantamento recente do Observatório de Futebol do CIES encontrou 1.455 brasileiros atuando fora do país, à frente de franceses e argentinos. A fábrica, portanto, não parou. Produzimos em grande quantidade e vendemos para toda parte.
Talento não parece ser o nosso recurso escasso. Falta um projeto que reúna esse talento, dê a ele sentido próprio e o transforme em equipe. Exportamos jogadores antes que construam vínculos profundos com seus clubes, importamos ideias táticas já prontas e, quando chega a Copa, tentamos fabricar uma identidade nacional em poucas semanas.
A seleção vira vitrine durante o intervalo de quatro anos. Interesses de clubes, empresários, patrocinadores e dirigentes conduzem convocações e carreiras. Quando o Mundial se aproxima, entrega-se ao técnico um amontoado de excelentes profissionais formados por escolas diferentes, habituados a sistemas distintos e conectados ao Brasil por uma memória antiga de uma infância sofrida. Agradecem a Deus por dela terem se distanciado. Poderiam muito bem pensar nos que não têm a mesma sorte ou talento. Não com esmolas, embora possam realizar suas doações, mas com projetos e, principalmente, pensando em serem a inspiração adequada.
Antes produzíamos treinadores com criatividade admirada por todos, como Telê Santana. Hoje entregamos a Carlo Ancelotti a tarefa de nos lembrar como uma seleção brasileira deveria jogar. A nacionalidade do técnico, isoladamente, pouco importa. O intercâmbio pode renovar qualquer tradição. O desconforto surge da incapacidade de apresentarmos um treinador brasileiro com experiência, preparo e autoridade comparáveis.
Importamos Ancelotti porque deixamos de confiar no que produzimos. Depois tentamos recuperar a confiança por meio de fórmulas pertencentes a outra história, a outro tempo. Entramos de mãos dadas, repetimos rituais de equipes campeãs, exibimos vídeos motivacionais e evocamos conquistas antigas. Meras formalidades, sem nenhuma essência. Papagueamos sem reencontrar aquilo que um dia fez tudo nascer.
A CBF e as federações regionais reproduzem, em escala reduzida, muitos dos vícios institucionais brasileiros: pouca transparência, concentração de poder, alianças questionáveis duradouras e responsabilidades que se dissolvem quando o resultado ruim e esperado chega. Clubes capazes de lotar estádios, vender direitos de transmissão e negociar jogadores por fortunas continuam eternamente acumulando dívidas. Como? O dinheiro circula e, de alguma forma, vaza. A construção nunca se completa. O interesse de poucos sobrepuja o da maioria.
Vendemos o presente e hipotecamos o futuro. Celebramos a próxima joia enquanto ainda estamos tentando entender por que a anterior não cumpriu tudo o que prometia.
O Brasil continua exportando jogadores, importando soluções e esperando salvadores. Vendemos matéria bruta, importamos tecnologia.
Enquanto isso, o resto do mundo se transforma, evolui e corre o risco de alguma seleção alcançar a sexta estrela antes do único detentor de cinco. Potência desperdiçada, no futebol e na organização política.
Glauco Saraiva é Escritor.



