Fio da meada (por Luís Giffoni)

Nunca fiz crochê, não apenas por preconceito, também por julgar que teria melhores opções para investir [...]

Nunca fiz crochê, não apenas por preconceito, também por julgar que teria melhores opções para investir o tempo. Enganei-me duas vezes. Para começar, homem faz crochê, sim. Dizem que é excelente terapia, melhor que meditação transcendental, remédio ou divã. Com linha e agulha, tão pouco, muita gente descobre os próprios potenciais e fraquezas, revolve e resolve pendengas com a vida, aprende a gostar de si mesma. Em segundo lugar, o crochê domina o tempo, ultrapassa-o, aprisiona-o sem destruí-lo, equaciona um sonho antigo de poetas e físicos: reverte a tendência à desordem no mundo.

De fato, o crochê tece uma arapuca para o tempo. Na malha, os instantes permanecem em cada ponto, cada volta, cada laço, cada nó. Minutos, dias e anos, sem se dar conta, acabam presos como inseto em âmbar pré-histórico e ficam expostos na tessitura. Meses, que de outra maneira teriam escoado e desaparecido, caem na rede de linha, tornam-se palpáveis, alcançam a eternidade — efêmera como toda eternidade humana, ainda assim capaz de tornar o passado muito presente no amanhã. Tempus fugit? Não, nas mãos dos crocheteiros o tempo é colhido todas as horas e ensilado para o futuro.

Acrescente-se à atividade o gênio que empresta aos fios a beleza das formas, gera espaços tridimensionais nas superfícies, reinterpreta a natureza e inventa padrões, desde a miudeza da dentelle à imensidão de uma toalha de mesa. Obtém-se a fusão do pessoal e do impessoal, do criador e do tempo. O resultado é uma obra única, pura arte.

Ao longo das últimas décadas, ganhei várias peças de crochê de uma pessoa que muito amava. Em seus anos de maior vigor, ela me presenteou com uma colcha de casal, desafio para poucos. Quando penso na quantidade de nós executados, desisto de contá-los. Passam dos seis milhões. Os pontos são firmes, o modelo é complexo, o acabamento é perfeito. Ela realizou a tarefa em pouco mais de um semestre, ajudada pela boa visão e disposição.

Mais tarde, o presente veio em forma de dois assentos para sofá, menores, ainda firmes nos laços, mais demorados na produção. O derradeiro, um pequeno enfeite, traz a marca da velhice. Apesar dos meses investidos, possui irregularidades nas carreiras e simplicidade no molde. O tempo encetava a vingança contra a tirana que o prendia. De tanto ser perseguido, resolveu dar o troco. Minou a algoz com vista fraca e desânimo. Por fim, levou-a.

Não testemunhei a confecção desses trabalhos. Quando os vi, estavam prontos, embrulhados. Percebo, no entanto, quanto amor à arte e a mim ali foi colocado. Ao abraçar as peças, embora toque o tempo nelas aprisionado, não o enxergo diretamente. As matérias-primas da transformação, os meses e a artesã, ficaram invisíveis, porém o resultado exibe um leve sopro de eternidade – efêmera, como dito antes, do tamanho de toda eternidade humana.

Essa invisibilidade, tornada sensível pela memória e pela imaginação, fascina-me neste momento. A vida tem muito de invisível. Seu início, por exemplo, ou sua presença depois do fim. No entanto, essas pequenas eternidades colhidas pelas mãos ou pelo intelecto nos sustentam. Formam a cadeia do afeto. O que somos sem afeto?

Emocionado, abraçado à colcha, descubro que um dia, já bem velho, se começar a desfazer essas malhas de crochê, colherei vida adicional, um tempo extra plantado por quem já se encantou. Basta puxar o fio da meada.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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