
Foi uma tarde de muito vento e prenúncio de chuva. À noite, enquanto a família via televisão, todos muito juntinhos, as árvores assoviavam e começou a trovejar forte. De madrugada, a chuva chegou.
Ele estava no dorme-não-dorme da vigília, aquele peso no corpo que dá a sensação de que as pernas não vão obedecer ao cérebro, quando aconteceu pela primeira vez. Uma fagulha cortou o espaço na altura da mesa de cabeceira, precedida pelo barulho típico de um curto-circuito. Passou-lhe pela cabeça, rápido como um relâmpago, que o abajur estava em pane. O raciocínio, apesar do sono, ainda funcionou: não, não era isso. Eles estavam no sítio; o abajur existia no apartamento da cidade. Dormiu.
Dormindo, teve a sensação, uma, duas vezes, de ver fagulhas no escuro. Mas o corpo negava-se a reagir. De repente, o ruído do curto-circuito ressurgiu mais forte, a esposa gritou. O estado mágico da letargia cessou, no instante em que uma fagulha atravessou o quarto. Ele passou a mão pelo interruptor, a luz acendeu-se, tudo parecia em ordem, contrastando com o barulho assustador do vento, da chuva e dos trovões. A mulher, de um salto, já estava junto à porta: “Onde é o fogo?” E gritava: “Santa Bárbara! Santa Bárbara!”.
“A instalação elétrica está em pane”, ele pensou. As crianças estavam de pé no corretor, expressões de pânico, esperando que o pai fizesse alguma coisa. Ele vestiu um casaco, pegou a lanterna e aventurou-se pela noite, deixando os meninos com ar de admiração. Chegou ao padrão de luz e desligou a energia. Voltou decidido e falou grosso. “Vamos dormir que o perigo acabou. Amanhã eu chamo o eletricista”. Mas ele próprio não dormiu, com medo de que as fagulhas tivessem se alastrado pelo madeirame.
Era domingo. Às sete da manhã, bateu na casa do eletricista. “Foi um raio que se alojou em algum aparelho elétrico”, o homem afirmou. Não era. Os aparelhos funcionaram muito bem. O eletricista era incansável: abriu todas as tomadas do quarto, descobriu parafusos bambos, pediu uma escada, subiu até o lustre, desmontou a boquilha e exultou: “É aqui! Vamos trocar essa porcaria de plástico por uma boquilha de louça”. Fez a troca, acendeu e apagou a lâmpada, por diversas vezes. Pronto! “Você precisa pôr um fio-terra no seu padrão de luz. Caso contrário, isso acontece de novo”.
Veio a noite seguinte. Ele ouviu a esposa fazendo um grande escarcéu, que havia besouros no quarto. Conseguiu matar um e ele desconfiou que não era um besouro. Foram dormir.
Na madrugada, dessa vez sem tempestade, de novo o ruido, o pânico a fagulha. Ele aguçou os sentidos. Estava bem acordado, permaneceu atento. Nova fagulha, dessa vez mais forte. Só então percebeu tudo.
Era um vagalume.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.




