A Humanidade Sustentada (por Vera Helena Castanho)

A convivência responsável e cuidadosa com a finitude humana, lado a lado com uma vida que atravessa [...]

A convivência responsável e cuidadosa com a finitude humana, lado a lado com uma vida que atravessa os seus 100 anos com lucidez e saúde, vem produzindo em mim compreensões difíceis de alcançar apenas pela teoria.

Há algum tempo percebo uma coisa silenciosa.

Talvez exista uma diferença profunda entre apenas envelhecer e sustentar humanidade até o fim da vida.

Vivemos em uma cultura que fala muito sobre performance, autonomia, produtividade e juventude. Mas ainda sabemos pouco sobre como atravessar a finitude sem transformar o tema em medo, negação, romantização ou apagamento.

Talvez porque ainda tenhamos dificuldade em reconhecer dignidade dentro da fragilidade humana.

Mas dignidade não é ausência de fragilidade.

Também não nasce de uma vida perfeita, sem erros, excessos, arrependimentos, dores ou perdas.

A vida humana real atravessa tudo isso.

Assim, talvez a grande questão esteja em outra direção:
como alguém termina uma longa travessia sem desaparecer de si mesmo?

Com o tempo, percebo que a velhice real não se parece com os discursos idealizados que costumamos ler ou produzir sobre ela.

Vive-se a velhice real, a possível.

Com limites.
Com cansaço.
Com desejos.
Com humor.
Com afeto.
Com ambivalências.
Com dores.
Com presença sustentada.

Sem heroísmo.
Sem infantilização.

E talvez exista algo profundamente humano em compreender que a beleza da vida não esteja em resolvê-la completamente.

Mas em sustentá-la.

Sustentar alguma forma possível de paz.
Alguma verdade.
Alguma dignidade construída no cotidiano.

Envelhecer com dignidade não tem relação direta com dinheiro, performance ou ausência de sofrimento.

Talvez tenha relação com permanecer humano enquanto a existência desacelera.

Não como apagamento.

Mas como continuidade humana possível.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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