A Guerra por todos os meios (Luiz Alberto Cureau Júnior)

Em 2010, escrevi em um trabalho de conclusão de curso no Uruguai, que as guerras do futuro poderiam [...]


Em 2010, escrevi em um trabalho de conclusão de curso no Uruguai, que as guerras do futuro poderiam não começar com ataques convencionais. A dependência das sociedades modernas da energia, das telecomunicações, dos sistemas financeiros e das redes digitais já indicava que seria possível paralisar um país sem ocupá-lo.

Passados mais de quinze anos, essa hipótese parece cada vez mais real.

O século XXI não eliminou os conflitos convencionais, mas ampliou seus domínios. Hoje, além dos espaços terrestre, marítimo, aéreo e espacial, existe um campo de batalha permanente, o ciberespaço.

A lógica estratégica mudou. Durante séculos, o objetivo era conquistar território. Atualmente, um adversário pode obter efeitos semelhantes comprometendo energia, finanças, comunicações, logística ou a confiança da população em suas instituições.

Os conflitos recentes demonstram essa transformação. A Ucrânia sofreu ataques contra infraestrutura crítica antes da intensificação da guerra. Redes elétricas, sistemas governamentais e comunicações tornaram-se alvos estratégicos. O conflito passou a ocorrer nos campos físico, econômico, informacional e digital.

A situação venezuelana também demonstrou, sob diferentes interpretações, como restrições financeiras, dificuldades energéticas, limitações tecnológicas e pressões econômicas podem produzir efeitos profundos sobre um Estado.

As grandes potências compreenderam essa realidade. Estados Unidos, China, Coreia do Sul, Alemanha, França e Itália tratam dados, sistemas e infraestruturas críticas como temas de soberania nacional.

Esses países construíram ecossistemas integrados entre governo, universidades, setor produtivo e defesa. Entenderam que segurança digital não é apenas tecnologia, mas poder nacional.

O Brasil possui profissionais e empresas qualificadas e instituições excepcionais. Entretanto, ainda enfrenta dificuldades para integrar capacidades e formar visão estratégica para proteger infraestruturas críticas.

Energia, telecomunicações, finanças, logística, portos, aeroportos e sistemas governamentais estão cada vez mais conectados. Quanto maior a conectividade, maior a dependência da segurança digital.

A política de defesa precisa ampliar seu horizonte. Defender a soberania nacional não significa apenas proteger fronteiras físicas. Significa garantir que o país continue funcionando diante de ataques capazes de comprometer sua decisão, coordenação e operação.

A proteção de identidades digitais, acessos privilegiados, informações estratégicas e sistemas críticos passa a ter importância semelhante à proteção de instalações militares e ativos industriais.

A disputa estratégica do século XXI não será apenas pela posse de territórios. Será pela capacidade de manter sociedades funcionando.

No passado, perder uma guerra significava perder cidades. No futuro, vai significar perder energia, conectividade, dados e capacidade de governar.

As fronteiras ainda existem. Apenas deixaram de ser visíveis.

Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático

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