
Uma cigana leu minha mão. Disse que a minha linha da vida é longa e entrecortada e que, num determinado ponto, para e faz um sulco para seguir de novo contínua, firme, sem interrupção.
Também disse que a minha linha da sabedoria não é paralela à vida, é curva, inclina-se para baixo. E então ela falou que tenho uma tendência a pegar coisas no ar, a perceber claro e de imediato o que ainda está aparentemente obscuro, e a ver na frente e em plena escuridão. Isto a cigana disse e perguntou-me: “você sofre”?
Repentinamente calou-se, depois olhou-me e disse: “não, não falo mais, vamos parar”. E eu, que já via com receio tudo aquilo, falei: “então pare. Se tem coisa ruim, não fale mais”.
Mas era desconcertante, essa cigana. Deu um sorriso faceiro, virou o rosto com dengo e disse assim: “também se eu falar você não vai acreditar…”
Ah! A curiosidade. Esse querer desvendar, esse desejo irreprimível de se conhecer o que está entre coberto, vale até mesmo quando o que está em jogo é o intocável, o de dar medo, o de não se querer saber: o destino, o fado?
“Deixe-me dizer, você não vai acreditar”, tentava-me a cigana e ia seguindo com o dedo a minha linha da vida e parou no sulco até onde ela seguia entrecortada. Então chamou os ciganinhos que não tinha visto onde estavam e eles nos cercaram e, quando a cigana lhes mostrou o meu destino, eles fizeram um grande ohhh! E uma ciganinha de nariz adunco desmaiou.
Mas a cigana continuava a percorrer minha mão com o seu dedo indicador, eu sentia seu dedo em minha pele e já o percebia como se estivesse empreendendo uma longa viagem à frente deste tempo. Ela gora tinha uma expressão suave e já não me assustava e, sempre movimentando seu dedo, disse: “veja, esta é sua vida como você e os outros a têm feito. É toda entrecortada, vê? É como se você estivesse sempre parando para refletir e tentar interferir; você tem consciência de que ela tem sido mais modelada pelos outros do que por você”.
No entanto, o dedo da cigana chegou novamente àquele ponto onde a linha se aprofundava e todo o meu temor voltou, fiquei tenso, e ela disse: “não, não é nada ruim, aqui o seu destino passará a ditar sua vida, vê como a partir desse sulco a linha segue contínua e firme? Você já terá encontrado o que procura ou, pelo menos, já terá intuído sobre o caminho que o levará lá”.
Então apertou minha mão com força, olhou-me com uma expressão fantástica, e falou: “quer eu lhe diga de uma vez o que vai acontecer? Quer que eu lhe diga como vai ser essa vida inteiramente sua?”
Mas nesse momento ouvimos uma cantoria louca e os ciganinhos reapareceram todos e, elevando a cigana como se fosse em um andor, saíram voando pela janela, em meio a uma grande algazarra.
Corri à janela, tentando ainda alcançá-los, mas tudo o que vi foi uma belíssima noite estrelada, com a lua em quarto-crescente. Então olhei a minha mão e vi, pela primeira vez, que a linha superior era toda entrecortada e, de repente, formava um sulco, de onde se recompunha nítida e contínua.
Lindolfo Paoliello é Cronista, Autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal Amadas.



