
Ghiggia não tirou a camisa. Talvez, por compaixão. Seu gol, aos 34 minutos do segundo tempo, no dia 16 de julho de 1950, humilhou o Brasil, desencadeou mortes por suicídio ou ataque cardíaco e deu o título de campeão do mundo da Fifa ao Uruguai.
“Apenas três pessoas calaram o Maracanã: o Papa João Paulo II, Frank Sinatra e eu”, declarou anos mais tarde o ponta-direita uruguaio. Alcides Edgardo Ghiggia Pereyra, apelidado de “El Negro”, apesar de branco, tinha 23 anos de idade.
Pelé também não tirou a camisa. Depois de coroado Rei do Futebol na Copa do Mundo na Suécia, o garoto Edson Arantes do Nascimento, proibido de assistir a filmes da Brigitte Bardot por ser menor de idade, teve a oportunidade de arrancar a bandeira do peito 58 vezes, como artilheiro absoluto do campeonato paulista de 1958.
Pelé conservou o manto do Santos no corpo. Talvez, por pejo ou decoro, congênitos ou contraídos no leite materno pelos nascidos em Minas Gerais. Um repeteco do que acontece com os habitantes de Bolonha, conhecida na Itália como A Cidade Vermelha, por sua tradição de esquerda. Lá eles sugam na primeira mamada no peito da mãe o anticlericalismo herdado dos séculos em que “La Rossa” foi governada pelos Papas de Roma.
Mil vezes Pelé poderia ter despido a camiseta, mil vezes não o fez – ele, o Messias que libertou o brasileiro do seu complexo de vira-lata, na expressão do imortal Nelson Rodrigues.
No entanto, a fascinação pelo cara pálida mantém-se de pé. No Brasil, segundo dados divulgados pelo IBGE em 2025, há mais Maradonas que Pelés registrados nos cartórios. Outro argentino, o Riquelme, ídolo do Boca Juniors, desponta como campeão nacional de devoção parental na escolha do nome aos filhos. O censo de 2022 informa que 25.942 Riquelmes circulam entre nós, número dez vezes maior que as 2.443 pessoas batizadas como Neymar, camisa 10 da seleção nacional.
Incorporar à família Juan Román Riquelme, atual presidente do Boca Juniors, parece representar um estigma menor para o bebê que batizá-lo com o sobrenome do carrasco nazista alemão responsável pela shoá, a palavra hebraica para o holocausto que vitimou seis milhões de judeus em campos de concentração. Diz o censo que habitam entre nós 168 Hitlers.
Mas voltando à vaca fria, não sei dizer se no passado algum craque brasileiro ou estrangeiro costumava exibir o peitoral de Sansão na celebração do gol. Chequei com o veterano da comunicação social brasileira, Talardo José dos Santo, ex-diretor comercial da TV Itacolomi e da TV Globo.
Ele também não guarda a informação nas gavetas da memória, onde arquiva as formações dos times a partir da década de 1950. Memorizar escalações é seu exercício mental. Passei-lhe, a seu pedido, os jogadores do Metalusina daqueles tempos, com a lista enviada pelo presidente atual, o formidável Tareco:
Moreira, Sinval, Machado e Djalma; Fidêncio, Ildeu, Dirson e Valdir; Jaime, Colete e Tiriri.
Registro da memória de Talardo: “Colete foi campeão no Atlético em 1956, no ataque com Murilinho, Tomazinho, Vaduca e Amorim. No jogo final, Atlético 1X0 Cruzeiro, com gol de Vaduca”.
Foi sua primeira ida ao Estádio Independência. E o Vaduca não despiu a camisa do Galo.
Hoje em dia, qualquer reles perna-de-pau faz strip-tease após o gol, como escreveria Nelson Rodrigues na coluna À sombra das chuteiras imortais, inicialmente publicada na revista Manchete Esportiva e em seguida no jornal O Globo. O artilheiro assume o risco de expulsão, se já estiver amarelado. Ele prejudica o time, diz Talardo.
Mas o que leva o goleador a gesto tão insano, provocativo, antidesportivo e condenado oficialmente pela Fifa desde 2004?
Tentei conversar com alguns jogadores por WhatsApp. Um cartola me desencorajou. Jogador não responde a aplicativos, explicou.
Em 1972, três anos após o milésimo gol de Pelé, o cineasta alemão Wim Wenders investigou o desatino no futebol e na vida com o filme O medo do goleiro diante do pênalti. Trata-se de uma adaptação do livro do austríaco Peter Handke, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura.
Franzino, displicente, mas atrevido, Joseph Bloch tomou um frango. Ele não parecia, nem no físico e muito menos na categoria, com Manuel Neuer, o goleiro da Alemanha que se sagrou campeã no Brasil, na Copa do Mundo de 2014.
O chute saiu de tão longe que nem a câmera conseguiu identificar de onde veio. O goleiro reclamou de impedimento. Correu para o meio do campo. Discutiu com o juiz. Em vão. E revoltado, Joseph Bloch desmente a propalada disciplina dos nórdicos: deu um chutão na bola. Acabou expulso.
E as cenas de futebol também acabam aqui, na abertura da história que se alonga em narrativa de um assassinato absurdo cometido pelo goleiro. Isso leva o espectador de Wenders, admirável diretor de Buena Vista Social Club, sobre músicos cubanos, – ou o leitor do romance do escritor Handke, roteirista do filme – a se perguntar qual a razão do título da obra.
Sem fontes de entendidos, procurei desenvolver minha própria concepção da estranha apoteose corporal do artilheiro. Em 1974, no confronto entre os pugilistas Muhammad Ali X George Foreman, contávamos com o escritor ianque Norman Mailer para guiar-nos no deserto africano para a compreensão da luta de boxe do século. Mailer enxergou na vitória do velho Cassius Clay a supremacia da revolução apregoada por Malcolm X e Luther King contra o vergonhoso atraso da segregação racial norte-americana.
Nos tempos atuais do negacionismo, da desinformação e disseminação de pensamentos estapafúrdios, vejo-me perdido, sem a quem recorrer. Estou no meio do campo minado de ideias religiosas, filosóficas e científicas sem a lanterna do físico brasileiro Marcelo Gleiser, pensador convincente que ilumina as sendas da origem da vida na Terra. Mas em alguns de seus textos sobre futebol, o cientista preocupa-se mais com o comportamento das torcidas no estádio, conforme seu artigo publicado pela Folha de S. Paulo em 27 de dezembro de 1990, “A física, o futebol e o anti-reducionismo”.
Aventuro-me a cavoucar a mente humana na hora do gol. Desconfio que o impulso tresloucado, considerado sacrílego e desrespeitoso, seja, na verdade, a epifania do jogador. Seu dia de rei. O ginete majestático ali arreado à espera da montaria. Seu átimo de rútila libertação do medo, fugaz feito a paixão, e inadiável como a morte, de subir ao palco. E encarnar Freddie Mercury no Rock in Rio, regendo, sem camisa, o maior coro do mundo. Naquela noite, em 11 de janeiro de 1985, mais de 200 mil pessoas entoaram, uníssonas, a canção Love of My Life, em Jacarepaguá.
Se tirar a camisa é uma loucura passível de expulsão, o artilheiro arrolha os ouvidos à razão.
Então, o herói desatinado gira sobre a cabeça o estandarte do time para a multidão. Lança-o no gramado. Urra. E protagoniza, como último ato da ópera, o suicídio do zangão, finda a cópula com a rainha da colmeia.
J.D. VITAL, jornalista e escritor, é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, na cadeira 92, à luz do patrono Teodoro Sampaio.



