
Poetas, seresteiros, namorados, sorriam: chegou o outono. É tempo de noites longas e claras e consequentemente de vivê-las. O mais intensamente possível. E da forma mais bela.
Manhãs de maio, tardes de abril. Ou será o contrário? Houve um poeta que tratou dos dias de abril, conferindo-lhes encanto especial. Tempo privilegiado, de dias curtos e bonitos, de noites longas e belíssimas.
Meu pai sempre contava a história do estrangeiro que saía de um hotel do Rio de Janeiro, em um dia qualquer de abril, e vendo aquele céu azul, árvores, plantas, tudo lindo, comentou:
— Que dia incrível. É primavera, não?
E responderam-lhe:
— Não, é outono.
Assim é o nosso outono. São assim nossos dias de maio, nossas tardes de abril, nossas noites nesta época. O próprio sol, para não destoar, para se mostrar integrado nesse tempo torna-se mais ameno, permite sombras mais longas, faz os dias mais agradáveis. É uma atmosfera leve, um ar gostoso, alegra o humor das pessoas.
E à noite o céu é um espetáculo. É uma beleza de se ver a olho nu e de se viver a céu aberto. O professor Bernardo Riedel, que pratica o agradável ofício de olhar estrelas, adverte-nos, em um artigo: “Procurem ver o Cruzeiro do Sul. É uma boa constelação de referência”.
Sigo o conselho do especialista, localizo o Cruzeiro do Sul e fico viajando pelo céu de abril. À direita está Canopus, a segunda estrela mais brilhante do céu. Tem uma cor branco-azulada, é 1.400 vezes mais luminosa do que o sol e é utilizada para orientação pelos sensores das naves espaciais. À esquerda de Canopus está um aglomerado estelar que ninguém diria estar distante da Terra cerca de 1.200 anos-luz.
Agora pego o binóculo e encontro, à direita do Cruzeiro do Sul, a massa gasosa que vai envolvendo uma estrela que chegou a ser a segunda mais brilhante de todas as estrelas — a primeira é Sírius — e que pouco a pouco vai perdendo o brilho.
Carina, Columba, Pictor, Taurus, Apus, Gemini, tudo isso no céu do outono, nas noites de abril. Li seu artigo, professor Riedel, fez-me bem, obrigado. É sempre bom alguém vir nos chamar a atenção para algo que está escancaradamente ao alcance da nossa vista e que às vezes não conseguimos ver.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O país das gambiarras, nosso alegre gurufim e A rebelião das mal amadas.




