
Há quem acredite que viver, por si só, ensina.
Mas viver não garante compreensão sobre a vida. O viver, por si só, é apenas um acúmulo de fatos.
Quando a experiência não é acompanhada de alguma leitura que ultrapasse a percepção imediata, tende a se repetir. Às vezes, com novos cenários, mas com a mesma estrutura.
Como exemplo, para o evento do Oscar 2026, uma cena curiosa se formou: grande parte dos brasileiros acompanhava, com convicção, suas próprias apostas entre as indicações. Havia expectativa, torcida, quase uma certeza íntima sobre quem deveria vencer.
Cada torcedor sustentava sua leitura afetiva, muitas vezes também identitária, atravessada por histórias, expectativas e desejos. Uma forma de ver que, ao mesmo tempo em que aproxima, também delimita.
E, talvez aí, já estivesse em jogo algo mais sutil.
A leitura afetiva, identitária, até mesmo nacional, é legítima. Ela nos envolve, nos aproxima, nos faz participar. Mas também carrega um risco silencioso: o de reduzir o campo de percepção ao que confirma aquilo com que já estamos implicados.
Diferente disso, uma leitura que busca algum grau de distanciamento, técnica ou mais isenta, exige deslocamento. Não se trata de neutralidade absoluta, que talvez nem exista, mas de uma disposição para ver além do próprio envolvimento.
Há um ponto em que absorver a realidade apenas pelos sentidos deixa de ser suficiente.
É preciso ler com amplitude e discernimento.
Ler o contexto.
Ler o outro.
Ler a si mesmo. O que é, talvez, o mais difícil.
Entre uma e outra leitura, não há certo ou errado.
Há amplitude ou restrição de olhar.
E isso não se limita ao cinema, como citamos apenas como um exemplo, sem pretensões de exigências técnicas cinematográficas.
Na vida, podemos ler a partir de vínculos, histórias, expectativas, posições internas que muitas vezes não reconhecemos. E, sem perceber, passamos a tomar como realidade aquilo que é, em parte, consequência e construção da nossa leitura. E, assim, entendemos que a experiência por si só não transforma tanto quanto imaginamos.
A transformação do viver não está apenas no que se vive, mas na forma como se lê o que foi vivido.
Existe uma diferença silenciosa entre viver e conduzir a própria vida.
Viver pode ser apenas seguir o curso dos acontecimentos.
Conduzir implica em perceber, discriminar, concordar ou não, em sustentar escolhas, mesmo quando não há garantias.
Depende de uma capacidade mais sutil: a de ler o que se passa, fora e dentro de nós, com abertura suficiente para não se limitar ao próprio ponto de partida.
Talvez por isso, em determinados momentos, não seja mais experiência que nos falta.
Seja amplitude de leitura.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



