O Brasil quer crescer!! Mas será que quer mudar? (Luiz Alberto Cureau Júnior)

Há uma ilusão recorrente no debate nacional, a de que o crescimento virá por decreto, por política pública [...]


Há uma ilusão recorrente no debate nacional, a de que o crescimento virá por decreto, por política pública isolada ou por um novo governo mais iluminado. Como se o problema estivesse sempre em Brasília, e nunca no espelho de cada um dos brasileiros.

O Brasil vive uma crise institucional, sim, e não é de hoje. Mas ela não nasce apenas nas instituições. Ela é reflexo direto de uma cultura que, há décadas, tolera atalhos, relativiza regras e transfere responsabilidades. Queremos um Estado eficiente, mas praticamos a ineficiência no cotidiano. Queremos um país sério, mas seguimos tratando o cumprimento do básico como opcional, mas para nós isso acaba sendo normal, como furar fila, andar acima da velocidade e etc …

Existe um ponto pouco confortável nessa discussão, o brasileiro, em média, cobra muito e entrega pouco enquanto cidadão, e o mais engraçado de tudo isso é que basta sairmos daqui para nos tornarmos os maiores cumpridores da lei, mas de outros países.

Criamos, ao longo do tempo, uma dependência perigosa de soluções estatais. Bolsa para isso e para aquilo, incentivo para quase tudo. Novamente, não se trata de negar a importância de políticas sociais, elas são necessárias em um país desigual. O problema é quando deixam de ser ferramenta de transição e passam a ser modelo estrutural.

E aí mora o risco, uma sociedade que se acostuma a depender tende a perder a capacidade de reagir, de inovar e de assumir protagonismo. Será que isso não é proposital?

Enquanto isso, temas estratégicos seguem negligenciados. Investimento em defesa, por exemplo, ainda é tratado como gasto dispensável, quando, na prática, é um dos pilares de soberania. Indústria nacional? Oscila ao sabor de ciclos políticos, sem previsibilidade, sem estratégia de longo prazo. Educação de base? Ainda distante do padrão mínimo necessário para sustentar um projeto de país.

Não há milagre aqui. Países que avançaram fizeram escolhas difíceis, disciplina fiscal, responsabilidade individual, investimento contínuo em setores estruturantes e, principalmente, uma cultura de respeito às regras.

O Brasil, por outro lado, ainda parece buscar um caminho mais confortável. Queremos o resultado sem aceitar o processo.

A crise institucional que enfrentamos é, em grande parte, consequência dessa dissonância. Instituições frágeis são reflexo de uma sociedade que não consolidou valores sólidos. Não adianta exigir excelência no topo quando a base é tolerante com o erro, desde que ele seja conveniente.

A pergunta que deveríamos estar fazendo não é qual governo vai resolver?, mas quando vamos assumir o que nos cabe?

Porque nenhum país se desenvolve sustentado por muletas permanentes. E nenhuma nação se torna relevante sem cidadãos dispostos a agir como parte da solução, e não como espectadores à espera de assistência.

O Brasil tem potencial. Sempre teve. O que ainda falta e já passou da hora, é ter maturidade para transformar potencial em realidade.

Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático

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