
O Brasil parece um gigante que desaprendeu a caminhar. Desperdiça sua força ao insistir em transformar uma perna em verdade absoluta e a outra em inimiga irreconciliável.
Grandes nações democráticas se mantêm de pé porque alternam impulso e contenção. Em certos ciclos, ampliam direitos; em outros, consolidam estruturas. Evitam excessos, autoritarismos prolongados ou permanências que sufocam renovação. Progresso e manutenção. Liberalismo e respeito aos costumes. Assistência e contenção. Elementos que podem existir em ambos os lados, com ênfases distintas, como dois pés que sustentam o mesmo corpo e permitem a construção de uma história sadia.
Na democracia, somos nós o remédio e a direção, mas muitos entregam cedo demais o poder que possuem e, às vezes, mantêm por tempo demais o aval a pessoas que um dia foram as certas e que o poder apodreceu. Renovação dentro do próprio campo e alternância saudável preservam o sistema e reduzem o risco de estagnação.
Do contrário, o medo passa a comandar as ações. As pessoas do povo se confrontam. Enquanto isso, políticos aparentemente em oposição se cumprimentam por trás das cortinas quando é preciso salvar a pele ou manter garantias próprias, mas sobem ao palanque com gargantas inflamadas de populismo.
Convicções firmes são legítimas. Mas a alternância protege inclusive o campo que se deseja defender, e ignorar isso cobra preço alto. Quando a perda vira tragédia, a oposição abandona a fiscalização e adota a sabotagem; quando a vitória vira licença, governantes esquecem que serão julgados depois. A redução da divisão social pressiona quem governa a andar na linha.
Nada disso significa aceitar qualquer figura em nome do equilíbrio. Há limites que não pertencem ao jogo comum: projetos abertamente autoritários, discursos que naturalizam violência, tentativas de capturar o poder pela força ou pela eliminação do adversário. Alternância política não é licença para normalizar o que ameaça a própria possibilidade de alternância. O diálogo precisa ser amplo, mas não ingênuo. Aproximação entre pessoas que divergem exige paciência quase infinita. Para os projetos de destruição institucional, entregamos vigilância. Todos temos pontos cegos e, às vezes, seguimos por uma estrada que parecia correta na primeira curva e já não leva a lugar nenhum.
Reconhecer mecanismos estruturais não implica ignorar que, em determinados momentos históricos, ameaças concretas podem surgir com maior intensidade de um lado do espectro político.
O cadastramento precoce em identidades políticas seduz e simplifica, mas estreita a visão. Cada um pode sustentar o que pensa, mas precisa revisitar escolhas conforme o mundo muda.
Sem isso, seguimos um país hesitante — avançando aos trancos, tropeçando no próprio tamanho, como um gigante desajeitado quando poderia simplesmente andar.
No Brasil, a dificuldade política não parece nascer apenas da alternância de poder, como tantas vezes se repete, mas da incapacidade de sustentar acordos duradouros que sobrevivam aos ciclos eleitorais. O lobby fragmenta prioridades e multiplica pequenas concessões; dispersa energia em ganhos imediatos e alimenta a corrupção, enquanto projetos de médio e longo prazo em escala nacional envelhecem antes mesmo de sair do papel.
Num país continental, exposto a pressões externas de toda ordem, a ausência de coordenação agrava o cenário ainda mais: o Executivo oscila, enfraquecido pela necessidade de arranjos; o Legislativo perde crédito público; e o Judiciário acaba puxado para arbitragens que nunca deveriam depender apenas dele — também ali atravessado por disputas e figuras problemáticas.
A ironia é amarga. Depois de termos atravessado uma ditadura custosa de derrubar, caberia justamente aos ocupantes do poder vigiar cada gesto que possa alimentar discursos de fechamento. Ainda assim, interesses miúdos, ambições pessoais ou simples falta de visão continuam abrindo fissuras desnecessárias.
No cotidiano, o efeito se espalha. Famílias se dividem. Amigos se afastam. Cada lado convencido de enxergar o defeito essencial do outro, raramente o próprio. Em diferentes momentos, parte da esquerda acabou se acomodando ao jogo do centrão; parte da direita, por sua vez, tem apostado em figuras extravagantes ou problemáticas, como se a ruptura simbólica resolvesse o que é, no fundo, problema de coordenação e horizonte comum. Fora o perigo que todos corremos quando essas figuras ganham força e momentum.
Um dos sintomas mais curiosos da polarização aparece no modo como julgamos o mundo externo. Em nome da defesa da democracia, relativizam-se regimes autoritários; em nome da defesa do mundo livre, toleram-se lideranças personalistas ou incendiárias vistas como barreira contra o campo oposto. O critério deixa de ser a natureza do regime e passa a ser a utilidade simbólica no conflito doméstico. Trata-se de um efeito previsível de sociedades polarizadas: quando a disputa interna domina a percepção, a referência gira em torno do adversário, não dos princípios. A escolha do voto deveria exigir a identificação com valores próprios e a avaliação da trajetória política de quem se apresenta, sem a necessidade de especialização em geopolítica ou macroeconomia.
Ambos acusam o outro lado de corrupção, sem pensar que podem estar, infelizmente, os dois certos — ou, em alguns casos, os dois errados, induzidos por manipulação e notícias falsas. Escândalos, mesmo quando verdadeiros — às vezes até por influência externa — podem surgir no tempo eleitoral exato para ampliar aversões, enquanto dão margem para que políticos apoiados façam o contrário do prometido sob o pretexto de evitar um mal maior. Em certos casos isso pode ser real; em muitos, vira ferramenta para manobrar uma massa que já se entregou.
O avanço das posições mais duras nem sempre nasce do crescimento real do extremismo, mas frequentemente do enfraquecimento do diálogo entre os moderados. Quando setores dispostos a cooperar deixam de reconhecer legitimidade no outro lado, o espaço comum se desintegra e as posições mais radicais passam a falar mais alto. Cada campo passa então a vigiar e pressionar o próprio centro: líderes moderados são acusados de traição, alternativas intermediárias perdem viabilidade e figuras mais eloquentes e persuasivas ocupam o vazio. A disputa começa a girar em torno de um salvador ou de um único partido como solução, enquanto a aversão passa a guiar a decisão e qualquer alternativa é sufocada pela máquina de propaganda do campo. Nesse ambiente, as composições deixam de se orientar por interesses de Estado e passam a responder a arranjos de sobrevivência política. O resultado, mais do que uma sociedade realmente extremista, é a perpetuação de um sistema político onde o centro desaparece — e, sem ele, qualquer tensão passa a parecer absoluta.
Pesa também o desgaste da figura política, envolta na percepção de corrupção sistêmica e no desprezo pelo mandato popular. Ministérios tornam-se moeda volátil; mandatos, trampolim. O eleitor escolhe um projeto e recebe arranjos. A política passa a administrar a própria sobrevivência antes de administrar o Estado. A democracia perde credibilidade.
O país segue potente, mas desorganizado — à espera de um pacto ainda sem forma, enquanto o debate se reduz a rótulos ideológicos pouco compreendidos e menos ainda sustentados.
Devemos sempre lembrar que antes de sermos eleitores de um campo — esquerda, direita — somos bípedes vivendo no mesmo chão. Nada impediria que posições opostas marchassem lado a lado por um objetivo pontual — barrar um imposto, preservar uma regra, corrigir um abuso — e depois voltassem a divergir no resto.
Em certos momentos, vale suspender alianças permanentes e permitir convergências pontuais. Cores e bandeiras ficam para as eleições; nos problemas concretos, a cobrança precisa ser comum.
Ainda assim, seguimos nos cadastrando cedo demais em identidades rígidas, como se a democracia não dependesse justamente da liberdade de escolher de novo a cada eleição. Ou seja, precisamos nos unir, mesmo com os que pensam diferente.
Se ao menos andássemos como o Saci — não pela falta, mas pela agilidade. Aos saltos, com malandragem criativa, astúcia de quem conhece o terreno, espírito indomável da mata e vocação para protegê-la. Talvez avançássemos melhor mesmo em condições imperfeitas, transformando desequilíbrio em movimento e obstáculo em impulso — inteligência de sobrevivência, não limitação.
O que se vê, porém, é o contrário: enrijecimento, enquanto figuras de caráter duvidoso seguem acelerando a corrosão das instituições.
O problema não é a existência de lados, mas a incapacidade institucional e cultural de sustentar continuidade entre ciclos políticos.
Glauco Saraiva é Escritor.



