Um gesto (por Lindolfo Paoliello)

Uma bomba atômica que lança pétalas de rosa, isto é um gesto .[...]

Um casal de amigos que completa 22 anos de casamento convidou-me para almoçar e participar da comemoração. Sentado com eles à mesa, ouvindo os comentários dos dois, as brincadeiras dos filhos, enfim, convivendo com tudo aquilo, pensei como é grande a força de um gesto.

Ao convidar-se alguém para uma comemoração íntima, faz-se uma escolha, uma opção. Estabelece-se uma preferência que privilegia e que é o mesmo que dizer: “Olha, entre tantos amigos, escolhi você para estar comigo neste momento. Você é bem vindo”.

E fora a admiração pelo hoje raro casamento de dois dígitos, passei a gostar ainda mais daquele casal de amigos, porque não só os casamentos vão a deriva, mas também muitas amizades.

Sobretudo, as pessoas não têm tempo ou inspiração para um belo gesto. Acho que nem mesmo têm a percepção do gesto, o que me parece mais triste por incorrer em uma decepção. Eu sou daqueles nos quais uma decepção dói muito mais do que uma ofensa ou um ato de má fé. É que a decepção é o malogro da esperança, golpe de misericórdia na ilusão.

No entanto, o gesto está sempre a mão. Umas flores, um bilhete, uma lembrança, uma surpresa, uma presença inesperada, um aceno, um “oi!” dito de repente, quando não se espera.

Porque o gesto há que ser sempre inesperado, embora seja sempre o que mais se espera. E há que ser sutil, finíssimo, tramado com argúcia e servido em luvas de pelica. Um gesto tem que ser assim exato, na conta e na medida, rápido, a ponto de não ser pressentido, e eficaz, para não ser nunca esquecido.

Inesperado, o gesto é esperança: anima, lava a alma, crucial como isordil, preciso, fulminante.

Sem que seja obrigação, o gesto gera a dívida; obriga docemente e, se retribuído, que seja tão de leve que não seja percebido, mas sentido.

Um gesto é capaz de operar milagres: vira a cabeça, reconcilia, atrai, seduz e conquista. Uma bomba atômica que lança pétalas de rosa, isto é um gesto. Tão ao nosso alcance, puro ato de vontade e, no entanto, há pessoas que passam a vida desejando um gesto, um afago, um ânimo de vida ao abrir os olhos; mas não, e ela adormece sem que lhe tenha sido dado esse mero aceno.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.

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