
Na manhã em que gravei “Meu corpo, meu corpinho” para o “Contos pra Sorrir”, eu já sabia. Sabia que não era apenas um livro infantil, bonito e colorido. Sabia que aquelas páginas, escritas por Roseli Mendonça e ilustradas por Ludmila Fernandes, carregavam muito mais do que uma história para embalar o sono.
Meu canal é voltado para crianças pequenas — daquelas que ainda pedem “mais uma vez” antes de dormir. Isso exigiu de mim uma escuta delicada. Mais do que ler, precisei adaptar. Não para mudar o sentido, mas para que cada frase coubesse num coração miúdo sem apertar. Encurtar períodos, suavizar transições, preservar cada ensinamento essencial — mas numa cadência que pudesse ser absorvida sem pressa, sem susto, sem medo.
Ajustei o microfone, busquei o tom doce, caprichei nas pausas. Li devagar, como quem oferece um colo de palavras. Mas não era um colo qualquer. Era um colo que ensina a criança a proteger o próprio corpo com a mesma naturalidade com que aprende a amarrar o sapato.
Era, deliberadamente, um escudo.
Ensinamos nossos filhos a atravessar a rua em segurança. Dizemos que brincar com fogo é perigoso, que subir muito alto pode machucar. Nós os amamos com tudo o que há em nós. Mas há outro perigo, sorrateiro, silencioso, que se aproveita justamente do que não foi dito.
O abuso sexual não escolhe classe social, etnia ou religião. Seus perpetradores, na maioria das vezes, estão acima de qualquer suspeita. São próximos, queridos, “confiáveis“. E é justamente essa a sua armadura.
Contra ela, o que temos? Tradicionalmente, tivemos o silêncio.
Mas Roseli Mendonça nos lembra, em cada página, que proteger também é contar. Que uma criança informada é uma criança menos vulnerável. Que não podemos garantir que nenhum mal jamais tocará nossos pequenos, mas podemos — devemos — tornar esse mal menos provável, menos fácil, menos aceitável.
O livro não fala em monstros. Fala em segredos bons e segredos ruins. Fala em colo que cabe e colo que aperta. Ensina que o corpo tem nome, sim, e que nome não é vergonha — é propriedade, é autonomia, é cidadania.
É um best-seller, sim. Mas não porque seguiu fórmulas de mercado. É best-seller porque tocou numa ferida que a sociedade mantinha encoberta e, em vez de sangrar, começou a cicatrizar.
Milhares de famílias já foram ajudadas. Mas toda criança precisa ter acesso. Toda.
Enquanto eu gravava, o mundo descortinava, mais uma vez, seus porões.
Documentos, listas, nomes. O caso Epstein reaberto. Escândalos aqui, acolá. Crianças que não tiveram conto. Corpos que não foram ensinados a dizer “isso é meu“. Adultos que carregam, ainda hoje, um segredo que aperta o peito e que nunca aprenderam a contar.
Não, o livro de Roseli não impede sozinho que novos casos aconteçam. Mas ele planta uma semente. E semente, a gente sabe, não impede a tempestade — mas garante que, depois dela, algo ainda possa florescer.
Escrevo nestas Entrelinhas porque acredito que o que não é dito também fala. E, por muito tempo, deixamos nas entrelinhas o que deveria estar escrito em letra grande, colorida, estampada na parede das escolas, repetido todas as noites antes do sono.
“Meu corpo, meu corpinho” é uma dessas frases que precisam sair do borrão.
O conto que gravei já está no ar, gratuito, disponível no “Contos pra Sorrir”. Não porque minha leitura seja extraordinária, mas porque precisamos de muitas vozes dizendo a mesma coisa até que ela se torne óbvia.
Até que toda criança saiba, sem sombra de dúvida, que o próprio corpo é a primeira casa.
E que casa tem porta, chave e direito de dizer:
− “Aqui não”.
Serviço:
Meu corpo, meu corpinho
Autora: Roseli Mendonça
Ilustradora: Ludmila Fernandes
Editora: Matrescência
Contos pra Sorrir: @contosparasorrir (youtube, spotify e Instagram)
Danielle Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.



