
Era um “chapa”, herói cotidiano que carrega e descarrega riquezas para suportar sua pobreza. Chamava-se Joel; sua função era descarregar os caminhões que chegavam à fábrica.
O Brasil tem coisas notáveis. Ia dizer impagáveis, mas mudei porque poderiam entender com outro sentido. Mas é um país notável; mudou do paternalismo da era da indústria de base para o neoliberalismo sem ter substituído as benesses do tempo das estatais por uma política de benefícios sociais racional e justa. Eu me lembro de uma conversa com Marcelo Coimbra Tavares, jornalista bem informado, que jurava que nos idos de Vargas foi criado um “salário vexame” para compensar os estivadores do cais do porto do Rio de Janeiro que carregavam vasos sanitários. Era demais!
Mas estou contando a história do Joel, “chapa” de uma fábrica. Um dia apareceu no refeitório um aviso de que a empresa precisava de um jardineiro. Ele apresentou-se, disse que gostava de plantas e não gostava de descarregar caminhões e achava que fariam bem feito se dessem o emprego para ele. José Mindlin, que nunca foi jardineiro, mas era um homem sensível, agiu da mesma forma quando pôs em sua biblioteca o pórtico que dizia “Só faço o que me dá alegria”. Agindo assim, formou a maior coleção de livros raros do Brasil. Vocês verão que Joel também teve sucesso. Deram-lhe o emprego e dava gosto ver a beleza do gramado que foi tomando extensão cada vez maior, sempre verde e bem cortado. Trabalhava com vontade e era comum o dono da fábrica chegar lá de madrugada e encontrá-lo cuidando da grama e, mais tarde, plantando um jardim. Joel criou um jardim na fábrica. Simétrico, colorido e perfumado que hoje dá gosto passear por lá. E como lhe deram um auxiliar, achou tempo para terminar o segundo grau e, na hora do almoço, fazer um curso de digitação.
Toda profissão é digna, mas tenho uma admiração especial pelo jardineiro, o marceneiro e o alfaiate. Sempre que tenho oportunidade esboço, com minha pintura simples, o quadro de um deles praticando o seu ofício. Este é o quadro do jardim de Joel.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.



