
Conhecer São Paulo ou ir prá lá a procura de trabalho é o desejo de muitos brasileiros. No meu caso, eu tinha a curiosidade de visitar a metrópole e encontrar alguns amigos que tive na infância, foram prá lá e nunca mais voltaram. É o caso de Zé Preto que foi criado na casa da minha vó e quando atingiu a maioridade deu linha e nunca mais voltou. Ela, muito esperançosa vivia falando, numa saudade sem fim: o dia que você for em São Paulo vê se acha Zé Preto prá mim, dizem que ele está trabalhando numa fábrica de cerveja…
A primeira vez que fui a São Paulo, vindo de Belo Horizonte, desci no terminal rodoviário Tietê, cheio de curiosidades. Logo de cara, esperando o táxi, vislumbrei o campo da Portuguesa no Canindé, time da minha maior admiração na capital Paulista onde brilharam: Félix, Ivair, o príncipe, Leivinha, Lorico…, só com isso já me dei por satisfeito. Lembrei também do livro Quarto de Despejo, em que a autora, Carolina Maria de Jesus falava da favela do Canindé, e ali passa grande parte da sua maravilhosa obra.
Aí então o astral melhorou mais ainda. No táxi, pedi ao motorista para que fosse para o Alto dos Pinheiros e o taxista me perguntou se era para passar pela ” Cerro Corá”. Como eu não conhecia nada na cidade e achei o nome muito interessante, disse que sim.
Quando passávamos por uma rua, ainda próxima à rodoviária vi uma frase no muro que me encantou sobremaneira: ” Kdê o Salvador Daqui”?
Cheguei ao endereço onde me hospedaria e apaguei, só no outro dia quando acordei, me lembrei de outras coisas que tinha visto pelo caminho.
Passando pelas marginais Tietê e Pinheiros fiquei deslumbrado, todas ruas arborizadas e floridas, a criançada pulava de um trampolim imaginário e ” tibum”, nadavam de braçada naquelas águas límpidas que cortavam a grande metrópole.
Logo cedo, fui conhecer a Ipiranga com São João, uma bela história que me ronda até hoje.
No outro dia, passei pelas marginais e não era nada daquilo, foi apenas um pesadelo que tive.
Voltando para Belo Horizonte, a caminho da rodoviária, passei novamente pela rua onde estava estampada a frase: “Kdê o Salvador Daqui”?
Da rodoviária, vi novamente o campo da Portuguesa e lembrei de outros capítulos do livro da nossa querida Carolina Maria de Jesus.
Entrei no ônibus para BH, cheio de sonhos bons, mas o meu amigo Zé Preto que Vó Iaiá tanto recomendava, infelizmente, não tive notícias apesar das tentativas.
Da segunda vez que fui a São Paulo, ao contrário da primeira vez que foi num vapt-vupt, foi para saborear essa grande metrópole mais amiúde com a oportunidade de realizar o sonho de uma forma mais planejada calcada nos procedimentos: Cultural, Gastronômico, Esportivo…, e outras coisas mais já que a cidade é um manancial muito fértil e possibilita muito prazer.
Cheguei numa Segunda Feira para assistir a gravação do programa, maravilhoso, do Rolando Boldrin, onde um amigo se apresentaria e foi um sucesso absoluto. Tanto que ele viria a se tornar um artista de renome nacional voltando a se apresentar no programa várias vezes com o mesmo sucesso.
Depois da gravação, saímos pela cidade madrugada afora, degustando a noite e a garoa paulistana.
No outro dia fui conhecer o Parque do Ibirapuera onde, pelo resto da semana, pratiquei memoráveis caminhadas regadas a novas amizades, conversas agradáveis e muitas outras coisas.
A noite, fui ao Sesc Pompeia onde quem estava se apresentando era, nada mais nada menos, que o genial Tom Zé. Confesso que saímos inebriados do teatro por tamanho talento, competência e etc.
Saímos pela Bela Vista deliciando as maravilhosas pizzas da região e ouvindo saborosas histórias sobre o, não menos genial, Adoniram Barbosa, frequentador contumaz dos locais confirmado pelos garçons pois alguns deles se tornaram amigos pessoais do gênio do Bixiga quando ele ainda estava por aqui.
Nessas alturas, prá mim, São Paulo era uma festa, assim como Paris foi para Hemingway.
Uma tarde inteira passamos no maravilhoso prédio do Masp, na Av Paulista, onde acontecia uma exposição da pintora Djanira, um negócio muito lindo!
Depois de muita curtição, faltava uma e talvez a derradeira desse passeio maravilhoso, conhecer o estádio do Pacaembu que sempre fez parte dos meus sonhos de infância, ouvindo pelo radinho a pilha os lances apaixonantes e o barulho da torcida.
Mas antes da partida começar, um Corinthians versus Portuguesa, fomos conhecer próximo ao estádio, o imóvel da rua Buri 35, por acaso onde o nosso grande ídolo Chico Buarque morou por muitos anos, outro sonho realizado nesse passeio.
Mas voltando ao estádio, aquela arquitetura da fachada nos impressionou sobremaneira mas o Pacaembu já não era aquela maravilha que era estampado nas revistas, a concha acústica já não existia mais, em compensação o jogo foi muito bom.
No outro dia era hora de partir e, ao contrário da vez anterior, quando fomos e voltamos de buzão, agora a viagem foi de “Asa Dura”, deliciando do alto o tamanho da nossa curtida e admirada, Pauliceia Desvairada, que tanto prazer nos deu nesses sete dias onde, acreditem, até um sentimento rolou e durou um bom tempo, salve!
José Emílio é Engenheiro Sanitarista e Jornalista



