
Saraiva tem aversão aos guichês. E, por extensão, aos balcões, às filas e à sua expressão maior: as repartições. Diz ele que é só aparecer diante de um guichê e as coisas deixam de funcionar. E, de uma forma, ou de outra, dão errado.
Foi assim quando lhe disseram que tirar a carteira de identidade ficou fácil que dá gosto ver. E como a dele era dos tempos do colégio e a foto lembrava alguém que ele conhecera há muito tempo e agora lhe causava antipatia, decidiu tirar nova carteira. Quer dizer, primeiro pediu à filha para sondar tudo direitinho, “por causa do seu trauma com guichês”, etc. Acontece que o agendamento era on line, o que levou a filha a redobrar os seus cuidados e ela lhe disse, docemente, que bastava ele ficar ao lado para lhe passar os dados que o sistema pedisse. Ele se retraiu, como se fosse estar diante de um fantasma. Ela, com jeitinho, perguntou se ele tinha a conta Gov.br. Ele estranhou e perguntou se aquilo era caro. Ela disse que bastava ele lhe informar a senha para que fosse feito o login. Foi quando ele explodiu e disse que tinha jurado nunca se meter nesse mundo de senhas e login. Ela ignorou sabiamente a situação, criou uma senha, anotou para ele os dados do agendamento e não conseguiu evitar um acesso de riso, ao lhe passar a informação passada pelo insidioso sistema:
– O passo seguinte é você levar pessoalmente os documentos e levar ao guichê do UAI.
Dos males, o menor: Saraiva foi lá e ficou maravilhado ao constatar que não havia fila e a funcionária era muito eficiente. Tanto que lembrou delicadamente que, se ele era casado, a certidão de nascimento só não servia e ele teria que voltar trazendo a certidão de casamento. E, percebendo seu desencanto, deu um golpe final sem encará-lo:
– Com firma reconhecida.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br



