
Há cerca de um século, o médico e sociólogo francês Gustave Le Bon já alertava para a facilidade com que o indivíduo perde a própria voz assim que se funde à multidão. Em sua análise sobre a psicologia das massas, ele observou que o pensamento complexo exige dúvida metódica e tolerância às ambiguidades do real — virtudes que se esvaem no calor do contágio coletivo. Em tempos de crise ou incerteza, a tentação humana de correr para o abraço acolhedor da manada e de suas certezas de plástico torna-se irresistível. Para manter a tribo unida, cria-se a divisão mais prática do mundo: de um lado, os cavaleiros da luz; do outro, os inimigos públicos [1].
Hoje, o que vemos triunfar é o magnífico pensamento monolítico: aquela estrutura mental que dispensa o trabalho de pensar, limitando-se a desqualificar sumariamente quem ousa ver o mundo com mais de duas cores. Entrar em um grupo político virou um ato de adesão cega a um pacote fechado de dogmas inegociáveis, onde a divergência deixa de ser uma simples diferença de opinião para se transformar em défice de razão ou pobreza intelectual.
No centro desse mecanismo estão o medo e a raiva. Os “ismos” — sejam populismos salvadores, fanatismos ideológicos ou identitarismos de moda — operam alimentando um pânico contínuo. Fabrica-se a ilusão de que a civilização vai ruir na manhã seguinte. A massa apavorada não raciocina, exige apenas proteção imediata e um culpado de conveniência. É aí que a raiva e a indignação diária mantêm o grupo de pé. Quem está ocupado sentindo ódio não perde tempo questionando a própria bolha; apenas aponta o dedo para o alvo da vez.
É daí que frutifica a árvore do bem e do mal na política moderna. A laicização da sociedade substituiu a religião institucionalizada por dogmas partidários, mas manteve intacta a necessidade humana de dividir o cosmos entre anjos e demônios. Os grupos políticos deixaram de disputar propostas administrativas de Estado para se transformarem em seitas. Nessa nova teologia secular, cada facção planta sua própria árvore do bem e do mal: o “bem” é tudo o que valida a sua narrativa; o “mal” é qualquer desvio, dúvida ou nuance vinda do exterior. O mais fascinante nessa engrenagem é a psicologia dos condutores desse processo. Os líderes e profetas dessa polarização raramente agem com cinismo frio; pelo contrário, costumam acreditar piamente nas próprias cruzadas, fundindo uma convicção quase religiosa a um implacável apetite de poder. Excluem a divergência com naturalidade porque, para eles, tolerar o contraditório não é um exercício de democracia, mas uma traição à própria verdade. A exclusão do outro decorre tanto de uma limitação cognitiva voluntária; o cérebro blindado contra qualquer dissonância.
Nesse esquema de poder, criam-se inevitavelmente os “amigos do rei”: a corte de fiéis escudeiros e acólitos que orbitam o trono garantindo que nenhuma brisa de lucidez extravase. E por que esses líderes e seus séquitos fazem questão de eliminar as sombras no nascedouro? Sabe-se que a sombra da dúvida, da crítica branda ou da moderação tem o potencial explosivo de desmascarar a farsa do dogma. Permitir que uma pequena ressalva cresça é correr o risco de ver desmoronar o imaginário construído sobre certezas absolutas. A divergência inicial é o grito da criança que aponta que o rei está nu. Deve ser podado na raiz.
Dessa árvore envenenada colhem-se os frutos mais amargos. O primeiro deles é a retórica em torno da liberdade de expressão. Cada facção agita a bandeira da liberdade como se fosse troféu pessoal, mas o paradoxo cínico é que essa liberdade é invocada exclusivamente para garantir o direito de ofender e cancelar o opositor, enquanto se mobiliza todo o arsenal possível para censurar e criminalizar a fala contrária. A regra do jogo é simples: a minha fala é o exercício sagrado de um direito; a do outro, um crime inafiançável. Essa intolerância migrou para o dia a dia. O sectarismo é tanto que a fúria se manifesta até diante de pequenas críticas ou ressalvas tímidas. Fazer uma observação construtiva ou apontar um detalhe duvidoso ou equivocado na narrativa oficial basta para atrair a repulsa dos fiéis, que tratam a ponderação como argumento do pior inimigo. O moderado é rotulado de covarde ou “isentão” por ambas as torcidas.
Essa visão maniqueísta produz uma obra-prima da hipocrisia moral. Alimentados pelo maniqueismo, os grupos nutrem um repúdio feroz contra a corrupção do adversário, mas desenvolvem uma vista grossa em relação aos malfeitos dos próprios aliados. O escândalo do outro é prova de podridão sistêmica; o deslize interno é relativizado como “erro individual” ou “conspiração”. Ocorre a escolha deliberada de fechar os olhos em nome do conforto tribal.
A política atual foi inteiramente abocanhada por esse personalismo tático, substituindo programas por figuras messiânicas que se vendem como a barreira definitiva contra o caos. O resultado dessa hegemonia é a erosão do espaço moderado: o centro político — bem como a centro-esquerda e a centro-direita tradicionais — assiste ao próprio colapso no mundo inteiro.
O pensamento monolítico infectou as ruas — onde o olhar sobre o desconhecido virou desconfiança —, as salas de aula, os locais de trabalho, o mercado consumidor e os grupos digitais de convívio social, transformados em arenas de linchamento moral. A polarização deixou de ser um debate eleitoral a cada quatro anos para virar um ruído permanente que envenena nossas relações mais íntimas, impulsionada pelo modelo de negócios da era digital, que recompensa financeiramente a raiva e o medo em detrimento da ponderação.
Quando essa lógica de aniquilação moral escala para além das palavras, o horizonte deixa de ser apenas o de uma briga de redes sociais e passa a flertar com o abismo geopolítico e social. Fruto dessa desumanização sistemática, a subjugação de minorias, o expurgo de dissidentes e a tolerância com a solução pela violência tornam-se parte do cardápio de cada tribo em nome de sua causa superior. O terror deixa de ser um desvio e vira método; o risco de conflitos armados, atrocidades em massa e guerras fratricidas passa a ser uma ameaça concreta. Quando o outro deixa de ser encarado como um adversário legítimo e passa a ser rotulado como uma praga a ser erradicada, a porta para a barbárie se abre.
Diante disso, surge a pergunta inevitável: essa polarização tem fim a curto ou médio prazo? O diagnóstico realista aponta para o não. Os pilares que sustentam essa divisão são estruturais e altamente lucrativos, tanto para o mercado político quanto para as plataformas de tecnologia.
E se a polarização não tem fim pela via do diálogo, seria ela solucionável pela força no pior dos mundos possíveis?
Quando a mediação colapsa, ressurge a tentação totalitária: a ideia de que a “solução” para o caos é usar a força estatal ou institucional para silenciar a metade considerada “má”.
Ora, historicamente regimes autoritários sempre prometeram pacificar a sociedade eliminando o contraditório em nome do bem comum. Ocorre que a força pura e simples não soluciona o pensamento monolítico; ela apenas o institucionaliza como dogma de Estado, empurrando a violência para baixo do tapete.
Na história humana, ciclos de radicalismo cego e apelo à força costumam encontrar fim não por um estalo de lucidez, mas pelo esgotamento ou pela catástrofe. A paz só costuma emergir quando a violência, os conflitos armados e o conflito social chegam a um ponto tão insustentável.
O triunfo do pensamento monolítico vaticina o velório da democracia. Sobreviver a essa fase exige o esforço de duvidar das certezas alheias e das próprias, desarmar o gatilho da raiva diária, encarar com o mesmo rigor a corrupção de ambos os lados, e proteger os pequenos respiros de convivência que ainda nos restam.
[1] Para Gustave Le Bon, o indivíduo inserido na multidão sofre uma profunda regressão psicológica, apagando sua consciência crítica e autonomia intelectual. Sob o efeito do contágio mental e da sugestão coletiva, a massa submete-se cegamente a líderes carismáticos, guiando-se por impulsos emocionais, imagens simplificadas e fanatismo dogmático. Como sintetizou o autor, “isolado, o homem é talvez um indivíduo culto; na multidão, é um instintivo — por conseguinte, um animal feroz” (LE BON, Gustave. Psicologia das Multidões. Paris: Félix Alcan, 1895)
Nelson Luiz Ferreira Pinto é Bacharel em História e Advogado



