A Bolívia ameaça fechar a torneira do gás para o Brasil, em 2029. A justificativa oficial chegou ao Ministério de Minas e Energia e ao Itamaraty, sob argumento que o país vizinho precisa atender ao próprio mercado. Muito legítimo. Mas, em matéria de gás, convém desconfiar também dos movimentos que têm cheiro de negociação comercial.
Em 2022, a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos já mostrou como joga esse fogo. Reduziu drasticamente o fornecimento à Petrobras e, no aperto, conseguiu arrancar da estatal brasileira um reajuste de preços. Na marra.
Hoje, somos o único destino externo do gás boliviano. A Petrobras, que recebe 20 milhões de metros cúbicos por dia, porém, não está sozinha nessa demanda. Há compradores privados, como Edge, do Grupo Cosan, Tradener, além de termelétricas e distribuidoras de energia. A YPFB já chegou a mandar para o nosso país cerca de 30 milhões de metros cúbicos a cada 24h.
Só que há um detalhe que La Paz parece estar subestimando: o Brasil já não é o mesmo freguês de anos atrás. Depois de décadas de obras, atrasos e escândalos, a Petrobras inaugurou o terceiro gasoduto do pré-sal, ampliando o escoamento da produção marítima até Itaboraí (RJ). O antigo e desgastado Comperj inclusive ganhou outro nome: Complexo Boaventura – às vezes, mudar a placa ajuda a virar a página.
E há mais: a Argentina, que por décadas também adquiriu o gás boliviano, cortou essa dependência com a expansão da produção na gigantesca formação de Vaca Muerta.
Ou seja, a Bolívia ameaça fechar a torneira justo quando seus antigos compradores encontraram e investem em alternativas. Espera-se que Lula trate o assunto com a firmeza que a importância estratégica do gás exige – e não com a diplomacia do tapinha nas costas.



