
“Qualquer Estado, qualquer entidade, qualquer ideologia que não reconheça o valor, a dignidade, os direitos do ser humano, esse Estado é obsoleto.” – Rod Serling, Twilight Zone, 1961
Analisar os protestos atuais na França e no resto do mundo apenas como uma reação a pautas políticas ou a favor de qualquer ideologia, é ignorar a psicologia profunda dos movimentos estudantis dos últimos 100 anos.
O que acontece quando a revolta rejeita respostas simplistas? O gesto de protestar, em sua forma mais pura, não precisa de uma teoria política conjunta para existir. Ele existe porque a falhas socias se tornaram impossível de ignorar.
Desta vez, não são apenas os setores trabalhistas que paralisam um país, mas sim os jovens que ocupam escolas. Quando a juventude toma o espaço público com tamanha intensidade, o fenômeno ultrapassa a mera disputa por diretrizes orçamentárias. O que se testemunha é uma convulsão social na qual a sala de aula se converte no último bastião de um contrato coletivo em ruínas.
É impossível encarar esse cenário sem evocar os fantasmas dos anos 60 no Mundo todo de Paris a Berkeley, de Harvard a ao Brasil, os estudantes protestaram porque o modelo de vida oferecido pelos adultos da geração anterior havia entrado em falência moral. É importante lembrar que a história rima, mas não se repete.
O movimento desse ano na França teve início em setembro, quando estudantes do ensino médio bloquearam o acesso a escolas para protestar contra professores, salas de aula superlotadas e sem ventilação e a falta de professores.
O que está acontecendo na França não é único. É só olhar para a Albânia, onde a raiva dos jovens causa uma crise social. O que começou como protestos contra a venda de terras protegidas pela família de Donald Trump e o custo de vida absurdo, virou uma revolta contra a corrupção que existe no sistema sob o governo do Primeiro-Ministro Edi Rama. Milhares de jovens invadiram a capital, enfrentando gás lacrimogêneo e barricadas, mostrando que o desespero dos jovens no Leste Europeu é a mesma coisa do desespero no Ocidente: a ideia de que as instituições que existem agora os afastaram de qualquer futuro que faça sentido. Nesses dias, a suprema corte do país foi incendiada pelos protestantes.
É crucial refletir sobre quem é essa nova geração. Trata-se de uma juventude criada sob o espectro de crises permanentes: colapso climático, volatilidade econômica, hiperconectividade digital e precarização das relações de trabalho. No entanto, o diagnóstico dessa frustração não é unívoco.
Ao mesmo tempo em que movimentos estudantis progressistas ocupam escolas pedindo investimentos públicos e justiça social, presencia-se um fenômeno paralelo e igualmente relevante: a guinada à direita de uma grande parcela da própria juventude.
Conclusão: “Você diz que quer uma revolução?”
Quando os Beatles falaram “Mas quando você fala sobre destruição, você sabe que pode me deixar de fora” (Revolution 1, 1968). O tom carregava a ideia de quem lutava pela mudança política muitas vezes se envolver na destruição publica sem propósito.
A nova geração já deixou seu recado: os políticos tradicionais perderam sua legitimidade moral.
Pedro Angelo Guedes é Estudante de Propaganda e Publicidade



