
Amor e ódio habitam a experiência humana e são constitutivos da nossa existência.
Freud nos mostrou que somos atravessados por impulsos que aproximam e impulsos que afastam. Por movimentos de construção e de destruição. E a civilização não elimina essa tensão. Tenta dar contorno a essa polaridade humana e natural.
Talvez uma das nossas maiores ilusões seja exatamente imaginar que pessoas boas amam e pessoas más odeiam.
Contudo, a condição humana é muito mais complexa.
Podemos amar e odiar. Acolher e rejeitar. Construir e destruir. E, em determinadas circunstâncias, experimentar sentimentos contraditórios diante da mesma pessoa, da mesma ideia, da mesma realidade.
Entre o amor e o ódio existe, portanto, um território profundamente humano. E é nesse espaço interno que somos convocados a fazer alguma coisa com tudo isso que sentimos.
Porque sentir ódio não nos obriga a destruir.
Amar não nos dispensa de enxergar.
Discordar não exige desumanizar.
E pertencer não deveria significar deixar de pensar.
Zygmunt Bauman, sociólogo e pensador contemporâneo da chamada modernidade líquida, utilizou a imagem do líquido para descrever um tempo em que relações, referências e certezas se tornaram pouco estáveis. Como os líquidos, que não conservam uma forma própria, muito do que antes parecia sólido passou a mudar rapidamente.
E, nesse mundo de liquidez, permanecer diante do desconforto, da diferença e da incerteza tornou-se mais difícil. Romper, afastar-se, rejeitar ou procurar apenas aqueles que confirmam aquilo em que já acreditamos pode parecer a opção mais fácil.
É justamente aqui que Hannah Arendt se torna especialmente atual.
Pensadora alemã de origem judaica, que viveu de 1906 a 1975, Arendt dedicou grande parte de sua obra à responsabilidade humana e à nossa capacidade de pensar e julgar a realidade.
E talvez esteja aí uma das questões essenciais do nosso tempo.
Pensar não é apenas raciocinar.
É interromper o automatismo.
É criar um espaço entre aquilo que nos acontece e aquilo que fazemos com o que nos acontece.
Nesse espaço nasce o discernimento.
Discernir exige pensar quando seria mais fácil reagir. Exige suportar a dúvida antes de aderir à certeza. Exige distinguir fatos de desejos, convicções de evidências e pertencimento de submissão.
E são esses alguns dos pilares da sustentação humana: pensamento, discernimento, responsabilidade e reconhecimento da existência e da influência do outro em nossa vida.
Não para eliminar nossas diferenças.
Mas para impedir que elas eliminem nossa humanidade.
Civilização não se sustenta apenas pelo que construímos fora de nós.
Sustenta-se também pelo que somos capazes de conter, elaborar e transformar dentro de nós.
Em tempos de muito ruído, preservar a capacidade de pensar talvez seja uma das formas mais profundas de preservar o humano.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



