
Fazer listas de ‘melhores’, ‘destaques’ e coisas assim será sempre um convite a esquecimentos, que, via de regra, acabam ganhando mais visibilidade do que as lembranças. A Universidade Federal de Minas Gerais, que comemora seu centenário em 2027, correu o risco e, numa iniciativa louvável, fez uma lista de ‘100 pessoas’ que tiveram presença marcante em sua história, celebrando-as em painéis no saguão da Reitoria.
Fui conferir, levando comigo os quase 30 anos de vida dentro da Universidade entre 1968 e 1996, como estudante e servidor, e as lições do mestre Zuenir Ventura, em seu livro “Minhas histórias dos outros”. Percorrendo os painéis dispostos na Reitoria, fui anotando que vivi histórias próximas de algumas das pessoas lembradas e, mais ainda, com outras que não estavam lá, mas que para mim deveriam estar.
A visita me despertou o orgulho de ver o quanto a ‘minha’ UFMG foi e tem sido importante para a história mineira e brasileira, mas me provocou desconforto a ausência de alguns nomes que considerava indispensáveis numa lista de tal monta e certo espanto por ver na lista nomes para os quais não encontrei qualquer relação de fato com a universidade.
Teria sido memória fraca dos organizadores? Ou foi só o critério de escolha? Pareceu-me estranho, por exemplo, que apenas dois ex-reitores tenham sido lembrados; o primeiro, Francisco Mendes Pimentel, e o sempre querido Aluísio Pimenta. Mas nenhum outro entre os 27 que já ocuparam o cargo merecia o destaque?
Lembrando a máxima de Gabriel Garcia Márquez de que “a vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda e como a recorda para contá-la”, resolvi assumir o risco dos esquecimentos e fazer minha própria lista de 100 pessoas que deveriam ser celebradas quando a UFMG completa 100 anos.
Tomei o cuidado de não repetir qualquer dos nomes da lista ‘original’, para demonstrar que ‘listas são listas’ e que cada um pode ter sua própria, sem que isso signifique demérito para as demais. E mais: recorri unicamente à minha memória, sem consultas a arquivos, google ou IAs.
A relação profissional com muitas das pessoas a seguir lembradas evoluiu em amizade, o que, todavia, não me inibe de citá-las; com outra grande parcela, tive a honra de manter contato profissional principalmente para editar o Boletim da UFMG, que criei há 52 anos; e a menção às pessoas com quem não convivi é resultado da história da instituição, que pude registrar pessoalmente durante quase um terço de sua existência.
Segue a minha lista
[Se sentir falta de alguém, faça a sua lista]
Reitores
[Cito apenas aqueles com os quais trabalhei]
Marcello de Vasconcellos Coelho (dezembro de 1969 a dezembro de 1973). Foi em sua gestão que comecei a trabalhar na Reitoria, primeiro como estagiário e logo em seguida como redator contratado. Teve papel fundamental na manutenção da autonomia da Universidade, pois os dois antecessores (Aluísio Pimenta e Gerson Boson) haviam sido cassados pela ditadura e havia pressão de setores que apoiaram golpe de 1964 para que um deles fosse escolhido; ele era jovem e recém-chegado à UFMG, tinha ótimo currículo acadêmico e um trunfo que poderia ajudar na sua nomeação: era concunhado do general Antônio Carlos da Silva Muricy. Incluído na lista do Conselho Universitário, foi nomeado e fez uma gestão totalmente alinhada aos setores progressistas da universidade.
Eduardo Osório Cisalpino (fevereiro de 1974 a fevereiro de 1978). Dirigiu a universidade com firmeza, em um dos períodos de maior repressão da ditadura, liderada pelo general Antônio Bandeira, que comandava as tropas do Exército em Minas. Foi durante seu mandato que houve a tentativa de realização do III Encontro Nacional dos Estudantes (III ENE), que acabou com centenas de estudantes sitiados na Faculdade de Medicina e depois levados para o Pavilhão de Exposições da Gameleira. O reitor ficou todo o tempo ao lado dos estudantes, evitando danos ainda maiores.
Celso de Vasconcellos Pinheiro (março de 1978 a março de 1982). Arquiteto, costumava dizer que procurava administrar “com o espírito prático de D. João VI”.
José Henrique Santos (março de 1982 a março de 1986). O reitor filósofo, que enfrentou algumas crises com temperança típica, entre as quais a ocupação do Hospital Borges da Costa para ser transformado em moradia estudantil.
Cid Veloso (março de 1986 a março de 1990). Já havia dirigido o Hospital das Clínicas e a Faculdade de Medicina e enfatizou em sua gestão o cuidado com os servidores técnicos e administrativos.
Vanessa Guimarães Pinto (março de 1990 a março de 1994). Primeira mulher a assumir a Reitoria da UFMG, consolidou as normas acadêmicas da Universidade e promoveu grande avanço no ritmo de construção do campus, implantando um sistema de administração direta das obras, inclusive com pagamento de produtividade aos operários. Foi responsável pela construção da Praça de Serviços, hoje um dos marcos do campus, mesmo enfrentando forte reação do movimento estudantil. Sua gestão viabilizou a criação da Caixa de Assistência à Saúde da Universidade (CASU), instituição autônoma gerida por professores e servidores. Foi presidente da Associação Nacional de Dirigentes das Instituições de Ensino Superior (Andifes) e Secretária de Estado da Educação de Minas Gerais.
Professores
[Mantive contato com todos em algum momento da trajetória na UFMG]
Ângela Mascarenhas Santos, professora de Filosofia
Ângela Vaz Leão, uma das criadoras do curso de Letras, professora celebrada por alunos como Afonso Romano de Sant’Anna e Silviano Santiago
Anis José Leão, um dos fundadores do curso de Jornalismo
Antônio Luiz Paixão, sociólogo, pioneiro no estudo e pesquisas sobre violência
Arthur Versiani Veloso, fundador da Faculdade de Filosofia
Delcio Vieira Salomon, diretor da Faculdade de Filosofia
Fábio Lucas, professor da Faculdade de Ciências Econômicas, escritor, crítico literário, aposentado pelo AI 5
Fábio Wanderley Reis, um dos criadores do Mestrado em Ciência Política
Hélio Pontes, foi pró-reitor de Planejamento e forçado a um autoexílio nos Estados Unidos, por ter sido incluído em lista elaborada pelo ministro do Exército Sílvio Frota dos “84 comunistas que integravam o governo federal”, quando ocupava o cargo de Secretário de Apoio do MEC
Hugo Amaral, diretor da Faculdade de Filosofia
Jacyntho Lins Brandão, professor da Faculdade de Letras, foi vice-reitor, é o atual presidente da Academia Mineira de Letras
José Alberto Magno de Carvalho, fundador e diretor do Cedeplar, especialista em Demografia
José Francisco Soares, o ‘Chico da Estatística’, foi presidente do Inep
Lucília de Almeida Neves Delgado, professora, cientista política, historiadora com foco principal na história republicana brasileira; autora de vários livros, entre os quais “Tancredo Neves: a trajetória de um liberal”; é poeta
Luiz Oswaldo Rodrigues, o LOR, médico, professor da Escola de Educação Física, cartunista; publicou durante muito tempo charges no BOLETIM DA UFMG
Magda Maria Bello de Almeida Neves, cientista política, historiadora, primeira mulher a dirigir a Fafich
Maria Auxiliadora de Faria, doutora em História Social, autora de vários livros de história, entre os quais “Diálogo com o tempo:170 anos do legislativo mineiro” (com Otávio Dulci) e “Zezinho Bonifácio; uma vida dedicada à política” (com Lígia Maria Leite Pereira)
Maria Céres de Castro, professora do Departamento de Comunicação Social, foi secretária municipal de Educação (gestão Célio de Castro)
Moacyr Laterza, professor de Filosofia
Paulo Bernardo Vaz, o Paulo Bê, artista gráfico, doutor em Comunicação
Paulo Paiva, professor da FACE, foi Ministro do Planejamento do presidente Itamar Franco
Paulo Roberto Saturnino, o ‘Paulinho Muleta’, graduado em Sociologia, foi professor do Departamento de Comunicação e exemplo de superação e resiliência, tendo construído sólida carreira acadêmica, vencendo as barreiras impostas por sequelas da paralisia infantil.
Pedro Parafita de Bessa, diretor da Fafich durante o período de maior repressão da ditadura militar
Sônia Viegas, professora de Filosofia
Washington Melo, graduado na primeira turma do curso de Jornalismo, foi presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de MG e da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)
Wilton Cardoso de Souza, professor de Literatura, linguista
Militantes
[Professores, servidor e alunos com destaque em entidades de representação]
Apolo Heringer Lisboa, médico graduado ela UFMG, criou o “Projeto Manuelzão”, para recuperação dos rios poluídos, em especial o Velhas
Irany Campos, fundador e presidente da Associação dos Servidores da UFMG (Assufemg)
Jânio Bragança, presidente do DCE
Luiz Pompeu de Campos, presidente da Apubh
Margarida Vieira, a Guida, presidente da Associação dos Professores Universitários de BH (Apubh)
Samira Zaidan, presidente do DCE
Festival de Inverno / Artes
[Pessoas com quem convivi e trabalhei durante os vários
festivais de que participei ou em outras atividades ligadas às artes]
Affonso Ávila, poeta, ensaísta, criador da revista BARROCO
Antônio Augusto Neto, Aneto, motorista da Escola de Engenharia, pintor, foi aluno de Guignard
Benedito Monteiro Schmidt, fotógrafo e secretário da EBA
Berenice Menegale, uma das criadoras do Festival de Inverno, diretora da Fundação de Educação Artística, foi secretária de Cultura de Belo Horizonte
Carlos Alberto Pinto Fonseca, o principal regente do Ars Nova – Coral da UFMG
Eduardo de Paula, ex-aluno de Guignard, professor de Artes Gráficas
Fábio do Nascimento Moura, um dos coordenadores da reforma administrativa implantada durante a gestão Aluísio Pimenta, foi chefe de gabinete da Reitoria e secretário dos Órgãos de Deliberação Superior (Conselho Universitário e Coordenação de Ensino e Pesquisa); um dos fundadores do Festival de Inverno
Haroldo de Matos, pintor, professor da Escola de Belas Artes e integrante do grupo fundador do Festival de Inverno
Haydée Bittencourt, fundadora e diretora do Teatro Universitário
Ivo Porto de Menezes, arquiteto, pesquisador da arquitetura colonial mineira
José Américo Ribeiro, professor de cinema da EBA
José Tavares de Barros, professor de cinema, um dos criadores do festival de Inverno
Júlio Varela, programador cultural dos Festivais de Inverno, secretário do Teatro Universitário e do Ars Nova
Plínio Carneiro, professor de Jornalismo, criador da Revista Literária do Corpo Discente, que revelou importante nomes da literatura mineira, e do Serviço de Relações Universitárias, que deu oportunidade a gerações de estudantes de Jornalismo e Relações Públicas.
Raimundo Machado Azeredo, criador do Presépio do Pipiripau
Ronald Claver, professor do Coltec, participou ativamente da Revista Literária e criou curso de redação específico para estudantes de graduação; tem vários livros publicados.
Rubens Costa Romanelli, primeiro pró-reitor de Extensão, um dos fundadores do Festival de Inverno
Sandra Bianchi, artista plástica, professora da Escola de Belas Artes, integrou a equipe do Giramundo – Teatro de Bonecos, aquarelista
Susy Melo, professora da Escola de Arquitetura, militante em defesa da preservação do patrimônio arquitetônico da capital.
Colegas de Administração
[Pessoas com quem trabalhei nos tempos de Reitoria]
Camilo de Assis Fonseca, engenheiro agrônomo do Horto Florestal, responsável pelo plantio de milhares de árvores e criação e distribuição de milhares de mudas.
Décio Marri, secretário geral da Reitoria
Eduardo Rodrigues Afonso de Moraes, autor da História da Universidade Federal de Minas Gerais, em dois volumes; foi secretário do Conselho Universitário
Evandro Lemos da Cunha, o Dinho, diretor do Centro Audiovisual e da Escola de Belas Artes
Gilca Alves Wainstein, primeira secretária-executiva da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep)
Guido Antônio De Caux, primeiro diretor de Pessoal da Reitoria
Jacques Schwartzman, professor da Face, foi pró-reitor de Planejamento
Jane Medeiros, jornalista que convidei para trabalhar comigo e fez longa carreira na UFMG; entre suas iniciativas na área de comunicação, está a criação da “grife UFMG” que fez grande sucesso na Universidade, antes de ser descontinuada
Jenner Procópio Alvarenga, pró-reitor de Extensão
Lucia Massara, professora da Faculdade de Direito e procuradora geral da Universidade durante vários anos
Luiz Felipe Vieira Calvo, prefeito da Cidade Universitária, dirigiu o projeto de construção de obras do campus por administração direta
Marcos Roberto Moreira, professor do Instituto de Geociências, assumiu a Coordenadoria de Assuntos Comunitários da Universidade e foi o artífice e um dos fundadores da Caixa de Assistência à Saúde da Universidade (CASU), que acaba de completar 33 anos de bons serviços prestados à comunidade universitária.
Maria de Lourdes Malta Saliba, diretora da Fundação Universitária Mendes Pimentel (Fump), que cuidava da assistência aos estudantes carentes da universidade.
Maria Lisboa de Oliveira, diretora do Centro Audiovisual
Roberto Marcus Faleiro de Faria, chefe de gabinete da Reitoria
Sr. Geraldo do Carmo, o ‘Geraldão’, porteiro da Reitoria durante anos
Virgílio Baião Carneiro, professor da FACE, teve papel importante na constituição da CASU.
Wolney Lobato, foi diretor do Instituto de Geociências e do Museu de História Natural e Jardim Botânico.
Cientistas / pesquisadores
[Em algum momento, tive contato com todos os relacionados]
Amílcar Vianna Martins, um dos grandes nomes da parasitologia brasileira, destacando-se pelas pesquisas sobe doenças parasitárias, como a esquistossomose, a leishmaniose e a malária.
Ângelo Barbosa Monteiro Machado, o ‘Angelim’, do ICB, especialista em Entomologia, reuniu a maior coleção de libélulas do mundo, para pesquisas.
Dirceu Greco, médico, professor, debruçou-se sobre os estudos e pesquisas sobre a Aids, logo após o surgimento da pandemia; coordenou o grupo de prevenção à doença, em âmbito nacional, com campanhas de esclarecimento
Ênio Cardillo Vieira, nutrólogo, doou seu corpo para estudos à Faculdade de Medicina
Fernando Correia Dias, sociólogo, historiador, autor de livro sobre a história da Universidade
Francisco de Assis Magalhães Gomes, o “Chico Bomba Atômica”, criador do primeiro curso superior em energia nuclear do Brasil
Ivan Moura Campos, um dos pioneiros da Ciência da Computação, ao lado de Nívio Ziviani e outros; foi diretor executivo da Fundep
João Amílcar Salgado, criador do Museu da Memória da Medicina
José Raimundo da Silva Lippi, professor, psiquiatra, pioneiro em pesquisas e tratamento de adolescentes; criou na Faculdade de Medicina curso interdisciplinar de especialização em infância e adolescência (Ciepsia)
Luiz de Paula Castro, pesquisador, criador do grupo de pesquisa que identificou a ‘helicobacter pylori’, bactéria causadora de problemas gastrointestinais
Ramayana Gazinelli, do ICex, figura central e histórica na ciência nuclear e na física de Minas Gerais
Wilson Beraldo, professor do ICB, participou do grupo de pesquisa que levou à identificação da ‘bradicinina’, substância que revolucionou o tratamento da hipertensão arterial
Wilson Mayrink, professor e pesquisador do ICB, coordenou o grupo que criou a primeira vacina contra a leishmaniose canina, do qual faziam parte as professoras
Cleusa Graça da Fonseca e Marilene Michalick
Yonne Grossi, socióloga e historiadora, pesquisadora do movimento sindical, autora do livro “Mina de Morro Velho; a extração do homem”.
Estudantes
[Ex-alunos que se destacaram na vida profissional,
sem vínculo profissional com a universidade]
Elias Santos, graduado em comunicação, é profissional de destaque no rádio mineiro, tendo sido presidente da Rádio Inconfidência, onde atuou durante vários anos
J. D. Vital, graduado em Jornalismo pela UFMG, foi repórter dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo; foi assessor de imprensa dos governadores Hélio Garcia e Tancredo Neves; é escritor de destaque da atual safra mineira, é membro da Academia Mineira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.
Trio Amaranto, formado pelas irmãs Flávia, Lúcia e Marina Ferraz, todas ex-alunas; o grupo iniciou suas apresentações no âmbito da Universidade
Homenagens
[Não conheci nem convivi, mas que merecem todas as homenagens]
José Carlos da Mata Machado, estudante de Direito, filho do professor Edgar da Mata Machado, barbaramente assassinado pela ditadura militar brasileira
Marcos Rubinger, professor da FACE, pioneiro nas pesquisas sobre a questão indígena, perseguido pela ditadura, foi levado ao autoexílio no Chile
Sylvio Vasconcellos, arquiteto, escultor, professor da Escola de Arquiteturaautor do ‘Monumento à Liberdade’, escultura em frente ao prédio da Reitoria.
Manoel Guimarães é Graduado pela Fafich / UFMG em 1971, foi servidor da Universidade durante 25 anos, como Assessor de Comunicação, chefe de Gabinete da Reitoria e editor do jornal-laboratório ‘Alternativa’; foi repórter de O Estado de S. Paulo, secretário de edição do ESTADO DE MINAS, assessor de comunicação da PBH (gestão Célio de Castro) e do Tribunal de Justiça de Minas Gerais; foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais e vice-presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj).



