O lulismo e o bolsonarismo em Pernambuco (por Adriano Oliveira)

O que predomina na disputa para governador é a avaliação da gestão, e não o apoio do presidente da República a determinado candidato [...]

Como há tempos venho frisando, com base nas pesquisas qualitativas da Cenário Inteligência, o que predomina na disputa para governador é a avaliação da gestão, e não o apoio do presidente da República a determinado candidato. Minha hipótese é que isto também ocorrerá nesta eleição. Isto não significa que o apoio de Lula não seja importante. Ele pode transferir afetos positivos para um candidato, mas não é necessariamente definidor. O eleitor pode votar em um candidato a governador porque ele está bem avaliado ou desperta afetos positivos, e não necessariamente porque é apoiado pelo presidente Lula.

Entre 2002 e 2022, os candidatos do campo lulista — Lula, Dilma Rousseff e Fernando Haddad — obtiveram, no primeiro turno em Pernambuco, 46,44%, 70,93%, 61,74%, 44,22%, 48,87% e 65,27% dos votos válidos. O melhor resultado foi o de Lula em 2006. Em 2026, trabalho com a hipótese de que Lula alcance entre 60% e 65% dos válidos no Estado. Por outro lado, Jair Bolsonaro obteve 30,57% em 2018 e 29,91% em 2022, revelando estabilidade do seu eleitorado nas duas disputas.

Quando olhamos para o Recife, encontro achados relevantes. Entre 2002 e 2022, o campo lulista obteve 50,50%, 61,51%, 42,92%, 26,20%, 30,05% e 54,03% dos votos válidos. Os menores percentuais ocorreram com Dilma, em 2014, e Haddad, em 2018. Bolsonaro, por sua vez, alcançou 43,14% em 2018 e 39,22% em 2022. Os números mostram uma diferença importante. Comparativamente, o lulismo apresenta menor força no Recife do que no conjunto de Pernambuco. Com o bolsonarismo ocorre o inverso: Bolsonaro teve desempenho proporcionalmente superior na capital. Em 2022, por exemplo, Lula teve 65,27% em Pernambuco e 54,03% no Recife. Bolsonaro obteve 29,91% no Estado e 39,22% na capital.

O que estes dados podem significar para a eleição estadual que se avizinha? Raquel Lyra apresenta força eleitoral e avaliação positiva em diversas áreas do interior, justamente onde o lulismo também é intenso. João Campos tem sua principal força eleitoral no Recife, onde o bolsonarismo apresentou desempenho proporcionalmente superior ao registrado no conjunto do Estado. Há uma aparente contradição que reforça uma tese que venho apresentando: a eleição para governador tende a ser estadualizada.

A força do bolsonarismo no Recife influenciará a escolha do eleitor para governador? De antemão, não considero que essa influência seja automática. Todavia, não descarto que tenha influência na escolha para governador e, particularmente, para senador. A questão é saber qual será o tamanho dessa influência. E por que o lulismo não necessariamente determinará o voto para governador no interior? Porque governos bem avaliados tendem a favorecer eleitoralmente seus governantes. Se o eleitor do interior aprova Raquel Lyra, ele pode votar nela para governadora e em Lula para presidente. Este é o ponto central do conceito de estadualização. Quando um governo está bem avaliado, a força da incumbência tende a estadualizar intensamente a disputa.

Desta forma, trago uma hipótese que merece ser observada: candidatos não incumbentes podem estar mais sujeitos à influência da nacionalização da eleição. Em outras palavras, a nacionalização pode ter força diferente para quem governa e para quem desafia o governante.

*Artigo originalmente publicado no Jornal do Commercio

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Método Qualitativo SEP (Sentimento – Estratégia – Previsão) & Estratégia

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