Brasil pega leve com a corrupção (por Eduardo Fernandez Silva)

É desconfortável concordar, ainda que raramente [...]

É desconfortável concordar, ainda que raramente, com um assassino, mentiroso, ladrão, trapaceiro, pedófilo e ególatra. No entanto, como creio ser importante manter a mente aberta aos argumentos daqueles de quem discordamos, para reduzir a polarização e construir caminhos benéficos à maioria, sou forçado a reconhecer que o Trump tem razão: o Brasil pega leve com a corrupção!

Há quem conteste, mas muitos concordam com a constrangedora afirmação; afinal, pegar leve ou pesado é questão de medida e interpretação. Discordo de quem acha que à menor suspeita de corrução a pessoa deva ser fuzilada, porém reconheço que há quem pense assim. Mais que buscar argumentos para questionar a incômoda afirmação, as questões relevantes são: por que o combate à corrupção, no Brasil, pode ser qualificado como “leve”, e, como mudar essa realidade?

A resposta exigirá teses de doutorado, mas me aventuro a sugerir uma hipótese, ciente de que a literatura já mencionou diversas, como o patrimonialismo, o coronelismo, o populismo, o corporativismo, o “sem caratismo”, o capitalismo e até mesmo o fantasmagórico comunismo.

Minha hipótese é que nossas instituições apodreceram e se tornaram lenientes com as corrupções por terem sido todas, ou quase todas, ocupadas por corruptos em seus quadros dirigentes. Quando? Há quem diga que desde a Península Ibérica. Melhor que debater a origem é discutir o futuro, para construí-lo com menos corruptos, corruptores e corrupções.  

Há ainda quem justifique a “leveza” dizendo que o mundo sempre foi e será assim! Afirmação falsa, pois se é verdade ser impossível eliminar o crime, qualquer crime, inclusive corrupção, é desejável e possível minimizá-los, como atesta o diferencial entre países da “percepção de corrupção”, medida pela Transparência Internacional: em 2025 havia 106 países “menos corruptos” que o Brasil, e nosso país “não apresentava recuperação consistente desde a década passada”. Esta última afirmação dá sustentação à ideia de que, aqui, pega-se leve com a corrupção, e a questão é: como melhorar nossa posição, se as instituições, todas ou quase todas, foram tomadas por corruptos, corruptores e complacentes com a corrupção?

O combate à corrupção exige ação individual, de cada um de nós, mas é, essencialmente, resultado de medidas institucionais. Com instituições capturadas por corruptos, como vencer esse câncer?

Recentemente, ouvi de um empresário elogios ao seu cunhado que, partindo do zero, acumulara grande fortuna e, recente e “lamentavelmente”, teve suas dragas de areia interditadas, pois operavam sem licenças. Elogiar aqueles cujas fortunas foram construídas com base na corrupção, silenciar e não denunciar suas práticas corruptas, é prática frequentes nos mais diversos meios: empresarial – do micro ao mega -, político – do vereador ao presidente -, judicial – do advogado “porta de cadeia” ao STF -, sindical patronal e trabalhista, dos sindicatos às Confederações, esportivo e em muitas outras “tribos”. Quem nunca ouviu de empresários que “é impossível prosperar sem azeitar alguém”, ou de políticos que “sem comprar votos não se ganha eleição”?

Em tal ambiente, não ser “leve com a corrupção” é comprar briga com uns pares, atingir colegas até então tidos como insuspeitos, perder amigos, envolver-se em processos judiciais caríssimos, demoradíssimos e de resultados raramente desfavoráveis aos mais abastados, e, ainda, ficar sujeito, senão propenso, a sofrer “acidentes” fatais. Com a milícia no planalto, a situação vai se agravar!  

O problema é real, grave, carece de solução urgente, e as próximas eleições dificilmente trarão grande melhoria nesse triste quadro.

Fazer o quê? Sabendo não existir bala de prata, tente, caro leitor, tente não votar em corruptos; pense, analise, pondere, debata. Assim fazendo talvez encontremos as respostas que, francamente, ainda não tenho, embora seja necessário e urgente encontrá-las!!!

Eduardo Fernandez Silva é Mestre em Economia pelo Institute for Social Studies da Universidade de Hague. Foi Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Autor.

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