
É difícil imaginar os Estados Unidos sem a águia-careca. Presente no brasão do país desde 1782, a ave tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos da identidade americana. Mas, no século XX, os próprios Estados Unidos chegaram perto de perdê-la em grande parte de seu território.
Em 1963, restavam apenas 417 pares reprodutores conhecidos nos 48 estados continentais. A população havia despencado após décadas de caça, destruição de habitat e, principalmente, pelo uso de um pesticida que se espalhou pelo ambiente: o DDT.
O produto não precisava matar diretamente as águias para causar estragos. Ao entrar na cadeia alimentar, seus compostos se acumulavam nos animais e interferiam no metabolismo do cálcio das aves. O resultado era particularmente cruel: as águias colocavam ovos com cascas tão finas que muitos quebravam durante a incubação.
O DDT foi proibido para uso agrícola nos Estados Unidos em 1972. Ao mesmo tempo, leis de proteção, preservação de áreas de reprodução, fiscalização e programas de recuperação começaram a mudar o destino da espécie.
A resposta da natureza foi extraordinária.
Em 2007, os Estados Unidos já contabilizavam cerca de 9.789 pares reprodutores, e a águia-careca foi retirada da lista federal de espécies ameaçadas e em perigo de extinção.
Mas a recuperação continuou.
Uma estimativa divulgada pelo U.S. Fish & Wildlife Service em 2021, baseada em levantamentos de 2018 e 2019, calculou aproximadamente 316.700 águias-carecas nos 48 estados continentais, incluindo cerca de 71.467 pares reprodutores.
A comparação ajuda a dimensionar o que aconteceu: de 417 pares conhecidos em 1963 para mais de 71 mil pares estimados pouco mais de meio século depois.
Há ainda uma curiosidade histórica. Quando a águia-careca foi escolhida para o Grande Selo dos Estados Unidos, no século XVIII, Benjamin Franklin não demonstrou grande entusiasmo pela ave. Em uma famosa carta de 1784, ele escreveu que ela era uma ave de “mau caráter moral” e elogiou o peru como uma ave mais respeitável embora a história frequentemente seja simplificada ao dizer que Franklin teria proposto oficialmente substituir a águia pelo peru, o que não aconteceu dessa forma.
Outro detalhe está no próprio nome. Em inglês, bald eagle parece significar “águia careca”, mas a ave evidentemente não é careca. O termo “bald” deriva de um uso antigo da palavra relacionado à ideia de cabeça branca. Os adultos desenvolvem a característica cabeça de penas brancas, enquanto os jovens são predominantemente marrons.
Hoje, a espécie não é mais classificada como ameaçada ou em perigo de extinção pelo governo federal americano, embora continue protegida por leis específicas.
Sua recuperação tornou-se um dos casos mais emblemáticos de conservação da vida selvagem: um animal que desaparecia silenciosamente conseguiu voltar depois que uma das principais causas de seu declínio foi identificada e combatida.
E talvez exista uma ironia nessa história: o símbolo de força e liberdade dos Estados Unidos precisou da intervenção humana para continuar voando sobre o próprio país que representa.



