
Na noite de 4 de agosto de 1789, a Assembleia Nacional Constituinte da França realizou uma das sessões centrais de sua história. Sob o impacto das revoltas camponesas e da pressão social nas províncias, a nobreza e o clero renunciaram aos privilégios feudais, direitos senhoriais e isenções tributárias. Mais do que um cálculo frio, foi um momento de exaltação em que parte dos presentes, diante da urgência de evitar a dissolução institucional, buscou fundar uma nova ordem sobre os escombros do Antigo Regime. Como lembra Giuseppe Tomasi di Lampedusa em “O Leopardo”, se quisemos que tudo mude para que tudo fique como está, é preciso que os detentores do poder façam concessões quando o cerco aperta — ainda que, naquele agosto revolucionário, o impulso inicial tenha sido forte.
O mesmo dilema se manifesta em dois impasses do mundo contemporâneo: o desequilíbrio fiscal do Estado e a transição ambiental. Em ambos os cenários, o obstáculo fundamental não é técnico, mas comportamental. Trata-se da resistência humana e institucional em abrir mão de benefícios adquiridos.
No âmbito da economia pública, os gastos com pessoal ativo e inativo consomem parcelas expressivas da arrecadação. O estamento burocrático — ramificado no Ministério Público, no Legislativo, no Judiciário e nas Forças Armadas — mantém prerrogativas, tetos remuneratórios e regras diferenciadas de aposentadoria. Diante dessa estrutura, a figura do reformista esbarra em limites reais de governabilidade, pois falta às lideranças políticas condições para neutralizar a capacidade de veto dessas corporações.
O setor privado e o mercado também não alteram essa equação. Presos à busca de resultados, à concorrência e à dependência de subsídios, desonerações e títulos da dívida pública, os agentes econômicos acomodam-se ao ciclo de despesas. Sem uma pressão sistêmica ou uma restrição severa de recursos, a classe política e a alta burocracia mantêm a inércia.
No plano ambiental, o debate sobre o aquecimento global — cuja participação humana é apontada por modelos científicos — esbarra em barreiras semelhantes. Exigir que nações e indivíduos alterem padrões de consumo e matrizes energéticas confronta interesses imediatos. Questiona-se a validade de cortes individuais enquanto outras economias mantêm seus níveis de produção e emissão.
Nutrir expectativas de que o diálogo resolva esses impasses contrasta com a experiência histórica. Tanto a reforma da máquina estatal quanto a reorientação ecológica esbarram na recusa de cortes voluntários. Em 1789, a nobreza francesa abriu mão de regalias sob pressão extrema. Resta saber se o século XXI promoverá reformas estruturais pela política ou se aguardará que o esgotamento fiscal e ecológico imponha mudanças sem planejamento — quiçá isso não venha a ocorrer.
Nelson Luiz Ferreira Pinto é Bacharel em História e Advogado



