
A história da guerra é, em grande medida, a história da adaptação. Quando lutar isoladamente deixou de ser suficiente, surgiram formações capazes de transformar homens em força organizada. Macedônios combinaram falanges, cavalaria e infantaria. Romanos acrescentaram flexibilidade, comando e logística.
A lição atravessa o tempo, nenhuma vantagem militar é permanente. Organizações também não sobrevivem apenas do passado.
No século XX, a combinação de armas tornou-se condição para vencer. No século XXI, continua necessária, mas já não é suficiente. O campo de batalha passou a integrar terra, mar, ar, espaço, ambiente cibernético e espectro eletromagnético. Drones observam e atacam. Satélites orientam operações. Inteligência artificial processa dados em velocidade crescente. Sistemas não tripulados, guerra eletrônica, sensores e redes encurtam o tempo entre detectar, decidir e agir.
Isso muda também o papel da indústria de defesa.
Já não basta fabricar uma excelente plataforma isolada. Um blindado, aeronave, navio ou míssil será tão eficaz quanto sua capacidade de comunicar, receber dados, operar sob interferência, proteger seus acessos e integrar-se aos demais meios. A nova combinação de armas é também uma combinação de tecnologias.
Para o Brasil, há aqui uma questão estratégica. Temos empresas, centros de pesquisa, universidades, engenheiros e programas militares. Mas possuir competências dispersas não significa possuir capacidade de combate integrada. Entre tecnologia e poder militar estão doutrina, escala, orçamento, treinamento e integração.
Forças Armadas e Base Industrial de Defesa não podem caminhar em pistas paralelas. A Força precisa indicar o problema operacional, a indústria, transformar a necessidade em solução, a academia, ampliar o conhecimento, e o Estado, assegurar continuidade. Sem demanda previsível, a indústria não investe. Sem indústria nacional robusta, a autonomia militar diminui. E sem doutrina atualizada, até a melhor tecnologia pode ser apenas equipamento caro.
O maior perigo é preparar estruturas para a guerra conhecida enquanto possíveis adversários se preparam para a próxima.
A falange foi revolucionária. A legião também. O carro de combate, o avião e o míssil igualmente. Hoje, a transformação passa pela integração de sensores, dados, inteligência, ciberdefesa, sistemas autônomos e decisão.
A história militar é severa com quem demora a aprender, tecnologia sem doutrina é ferramenta, doutrina sem indústria é intenção, e Forças Armadas sem capacidade de adaptação podem descobrir tarde demais que estavam prontas para a guerra de ontem. E o Brasil está pronto para a nova era ou ainda joga os dados da Segunda Grande Guerra?
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor em Defesa e Clima



