
Primeira cena: a espera.
Pequeno, cuidadosamente construído entre os galhos, quase escondido entre as folhas, o ninho acolhe uma vida que ainda não se deixa ver.
Ali, em silêncio, a mãe protege, aquece e espera.
Antes dos bicos abertos, das asas frágeis e dos primeiros movimentos, existe esse tempo invisível em que o amor já cuida daquilo que está por nascer.
Segunda cena: a vida chegou.
Bicos abertos, asas ainda frágeis, corpos minúsculos inteiramente confiados ao cuidado de quem os trouxe ao mundo.
Agora, o silêncio da espera dá lugar ao chamado da vida.
A mãe se aproxima, alimenta, protege e responde. Em cada gesto, oferece aos filhotes aquilo de que precisam para crescer.
Terceira cena: a presença.
Os filhotes ainda pedem alimento. Pequenos e vulneráveis, dependem inteiramente de quem permanece por perto.
A mãe observa.
Há momentos em que cuidar é alimentar. Em outros, é simplesmente estar ali: atenta, vigilante, disponível.
Durante algum tempo, tudo cabe naquele pequeno ninho: a necessidade dos filhotes, a presença da mãe e esse amor silencioso que protege a vida enquanto ela cresce.
Quarta cena: o ninho ficou pequeno.
Os filhotes cresceram.
Os corpos antes minúsculos agora mal cabem no espaço que um dia pareceu tão grande. As asas ganharam forma. Os olhos já procuram o mundo além dos limites do ninho.
Nada falta ali. O ninho não diminuiu, nem deixou de acolher.
Foi a vida que cresceu.
Talvez seja esse um dos movimentos mais delicados do amor: perceber que aquele a quem protegemos já precisa de espaço para experimentar as próprias asas.
A natureza não interrompe o crescimento para preservar o aconchego.
Ela acolhe, alimenta, fortalece. E, no tempo certo, permite o voo.
Há beleza na chegada.
Há ternura na permanência.
E há amor também na partida.
Porque todo ninho verdadeiramente amoroso não é construído para nos prender.
É construído para nos preparar para voar.
O ninho não ficou pequeno.
Foi a vida que ficou grande.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica



