O ninho ficou pequeno (por Vera Helena Castanho)

Pequeno, cuidadosamente construído entre os galhos, quase escondido entre [...]

Primeira cena: a espera.

Pequeno, cuidadosamente construído entre os galhos, quase escondido entre as folhas, o ninho acolhe uma vida que ainda não se deixa ver.

Ali, em silêncio, a mãe protege, aquece e espera.

Antes dos bicos abertos, das asas frágeis e dos primeiros movimentos, existe esse tempo invisível em que o amor já cuida daquilo que está por nascer.

Segunda cena: a vida chegou.

Bicos abertos, asas ainda frágeis, corpos minúsculos inteiramente confiados ao cuidado de quem os trouxe ao mundo.

Agora, o silêncio da espera dá lugar ao chamado da vida.

A mãe se aproxima, alimenta, protege e responde. Em cada gesto, oferece aos filhotes aquilo de que precisam para crescer.

Terceira cena: a presença.

Os filhotes ainda pedem alimento. Pequenos e vulneráveis, dependem inteiramente de quem permanece por perto.

A mãe observa.

Há momentos em que cuidar é alimentar. Em outros, é simplesmente estar ali:  atenta, vigilante, disponível.

Durante algum tempo, tudo cabe naquele pequeno ninho: a necessidade dos filhotes, a presença da mãe e esse amor silencioso que protege a vida enquanto ela cresce.

Quarta cena: o ninho ficou pequeno.

Os filhotes cresceram.

Os corpos antes minúsculos agora mal cabem no espaço que um dia pareceu tão grande. As asas ganharam forma. Os olhos já procuram o mundo além dos limites do ninho.

Nada falta ali. O ninho não diminuiu, nem deixou de acolher.

Foi a vida que cresceu.

Talvez seja esse um dos movimentos mais delicados do amor: perceber que aquele a quem protegemos já precisa de espaço para experimentar as próprias asas.

A natureza não interrompe o crescimento para preservar o aconchego.

Ela acolhe, alimenta, fortalece. E, no tempo certo, permite o voo.

Há beleza na chegada.

Há ternura na permanência.

E há amor também na partida.

Porque todo ninho verdadeiramente amoroso não é construído para nos prender.

É construído para nos preparar para voar.

O ninho não ficou pequeno.

Foi a vida que ficou grande.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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