
Hoje reinam a inteligência artificial e outros artifícios e malabarismos tecnológicos, mas houve época em que propaganda eleitoral na televisão era só um retratinho 3 por 4, fixo, enquanto um locutor citava o partido, o nome e um currículo de meia dúzia de palavras. O candidato não tinha voz, portanto não prometia o paraíso. A intenção era evitar que opositores conseguissem, ao mostrar outras versões da realidade, sensibilizar os eleitores de que atenderiam as necessidades da população, em confronto com o insucesso dos poderosos autoentronizados em 1964.
A ideia partiu do ministro da Justiça, Armando Falcão, e se destinava a evitar a repetição do desastre governista nas eleições de 1974. Por isso, a lei que redigiu em 1976 tomou o seu nome e iria vigorar nos pleitos de 1978 e 1982. Mirava a propaganda no horário eleitoral, ainda hoje em vigor. Só podia ser projetado o retratinho como o da carteira de identidade. Nada de fórmulas pensadas para contrapor-se à versão oficial protegida pelas restrições à liberdade de expressão.
O tempo passou, os poderosos de então foram banidos. Ulysses Guimarães lhes tirou o tapete e Tancredo Neves deu o empurrão final. Ao término da década de 1980 os eleitores voltariam a ter vez. A reestreia experimentaria novos instrumentos de convencimento. Meio mais poderoso, a televisão já não exibiria apenas as fotozinhas sem graça. Apareciam os filmetes produzidos segundo técnicas atualizadas. Um dos candidatos a aproveitar-se da mudança foi Fernando Collor. Na sua disputa com o estreante Lula barbudo, em 1989, vinha discretamente a Belo Horizonte para gravar as suas mensagens, cujos criadores pretendiam apresentá-lo como o valente que iria fulminar a inflação com um ippon ou uma bala de prata, além de eliminar os marajás, casta hoje à sombra dos “penduricalhos” e outras vantagens incontáveis. Aproveitava a viagem para se entender com a empresa especializada em pesquisas de opinião, outro elemento a entrar fortemente na batalha eleitoral e alvo de avaliações controversas sobre a sua influência no processo.
Em sucessivas eleições o tempo na televisão passou a ocupar preocupação destacada nas articulações e arranjos diversos entre os partidos. Entende-se, mesmo agora com a disseminação das redes sociais, ser a duração do tempo televisivo um fator crucial. Os exemplos são lembrados, como o de outro barbudo. O excêntrico Enéas, cuja barba negra parecia compensar a calva profunda, enquanto os óculos de tamanho exagerado completavam a sua figura. Tinha poucos segundos diante das câmeras, mas ele se saiu muito bem com o simples refrão “Meu nome é Enéas”. Em 2002, não apenas se elegeu, mas com o seu 1,5 milhão de votos puxou mais cinco para a Câmara Federal pelo partido que havia criado, o Prona, mais tarde absorvido pelo PL. Teve fôlego para insistir, sem êxito, na disputa pela Presidência.
A questão principal é: desde a Lei Falcão dos retratinhos até a inteligência artificial, mudou a forma, mas, e o conteúdo? A maioria das mensagens fica mais no terreno das mentiras e promessas mirabolantes (“Qui mintira, qui lorota boa”, do rei do baião, Luiz Gonzaga) e cria dúvidas sobre as intenções reais do candidato. Leva à menção ao anotado recentemente por um destacado neurocientista: “…o mundo hoje acredita em todos os maiores loroteiros da história”. Comporta agir como o dissimulado roceiro da literatura mineira: fingir acreditar no palavrório vazio, mas no silêncio da cabine eleitoral votar em outro, cuja história pessoal e política o recomende para cumprir o esperado e desejado pelo eleitor.
Ariosto da Silveira é jornalista. Presidiu o Centro de Cronistas Políticos e Parlamentares de Minas Gerais (Cepo)



