
Ben-Hur está entre nós.
Ele, mesmo, o príncipe Judah Ben-Hur, cidadão de Jerusalém nos tempos de Cristo, vivido pelo ator norte-americano Charlton Heston em um épico do cinema lançado em 1959 que concorreu a doze e levou onze estatuetas do Oscar.
No filme, o judeu derrota o general Messala, comandante das legiões romanas na Judeia, em alucinante corrida de bigas puxadas por cavalos, filmada em cinemascope para delírio das massas, em imagens que não me saem da saudade.
Na verdade, Ben-Hur é apenas mais um dentre os aurigas que alugam os 1.200 patinetes elétricos autorizados a circular pelas calçadas de Belo Horizonte. Sem CNH, sem capacete e proteção corporal. Sem pisca-alerta e sem buzinada. Liberados por um toque digital no celular.
Para horror dos pedestres, os passeios converteram-se em raias trepidantes do Circo Máximo, por incúria do prefeito ou por cumplicidade de técnicos da Secretaria de Mobilidade Urbana. Sem normas claras e sem fiscalização.
Mas, dois mil anos atrás, em Roma, nas pistas do Circo Máximo, as autoridades cuidaram, com zelo que falta aos nossos contemporâneos, de estabelecer regras, conforme escritos de autores da época, como Plínio, o Jovem (61-112 D.C) e Plínio, o Velho (23-79 A.C).
“Os condutores usavam equipamentos de proteção, com roupas de couro espesso, capacetes e túnicas grossas com faixas horizontais de couro acolchoadas em torno do tronco, peito e coxas. O carro era produzido com rodas pequenas e leves para manter a estabilidade nas curvas fechadas”, segundo informa a World History Encyclopedia, em texto escrito por Laura K.C. McCormack, traduzido por Ricardo Albuquerque.
Em BH, salve-se quem puder. O condutor e o pedestre.
As bigas elétricas infestam a Praça Marechal Floriano Peixoto, em frente ao quartel da Polícia Militar no bairro Santa Efigênia.
Na avenida Brasil, instalou-se um tobogã de testes para cardíacos. Um tranco a cada ultrapassagem manobrada pelos pilotos dos antigos carrinhos de rolimãs.
Ao longo da avenida Afonso Pena, os cavalinhos de metal obstruem o caminho. Depois de usados, são descartados nas calçadas. Indesejados como bandejas empurradas para fora do apartamento no corredor do hotel, depois do jantar. Um estorvo que polui a civilização.
Por enquanto, ainda não se introduziu nas Alterosas a permissão romana de chicotear os rivais quando empatam a pista. Deus seja louvado!
O tráfego indesejado e perigoso de cocheiros motorizados ameaça idosos, crianças, a todos, sem distinção. As engenhocas elétricas não buzinam. Nem piscam farol.
O prefeito acha normal:
“Vai ter acidente com patinete, vai ter acidente com bicicleta, vai ter acidente com moto” – declarou ao jornal O Tempo o prefeito Álvaro Damião, do União Brasil, em 18 de março de 2026. E completou: “A gente está trazendo para Belo Horizonte o que nas principais capitais do mundo tem”.
Em 2025, o prefeito Álvaro Damião viajou cinco vezes ao exterior, às custas do erário, informa aCâmara Municipal. Ele foi ao Paraguai, ao Peru, à Alemanha, a Israel e à China. Sob críticas dos vereadores, cancelou a viagem aos Estados Unidos programada para a Copa do Mundo.
Uma pena.
Viajar areja o homem público. Dá-lhe instrução e educação cívica.
Sugiro que ele vá agora a Paris.
Lá, o aluguel de patinetes já é proibido desde 2023. Foi uma decisão de vanguarda e corajosa que enfrentou as empresas multinacionais do setor. Elas conseguiram, com lobby e marketing, criar a ideia de que andar de patinete representa uma evolução na mobilidade urbana.
Com tal discurso, as empresas – no Brasil, representadas pela JET Aluguel de Patinetes – inundaram de carrocinhas o pátio do Coliseu em Roma, os espaços de Berlim, o Central Park em Nova Iorque e até mesmo as plácidas paisagens da civilizada Suécia.
O professor Dimas Miranda, da PUCminas, que trocou Corinto pelas ilhas gregas nas férias de julho, não as avistou nas cercanias da Acrópole, em Atenas.
Paris endureceu as regras. O novo prefeito Emmanuel Grégoire, do Partido Socialista, empossado em março, avançou a regulamentação municipal sobre os veículos particulares que ainda são permitidos de transitar ao longo do Rio Sena, sob o esplendor da Torre Eiffel.
Desde o dia 8 de agosto deste ano, a capital francesa tornou obrigatório o uso de capacete e de colete refletor pelos usuários das carruagens em forma de patins.
As novas medidas de segurança, diz a imprensa internacional, visam à prevenção dos acidentes que resultaram em 79 mortes durante o ano de 2025. Os infratores poderão ser penalizados com multas de até 135 euros, equivalentes a R$ 810,00.
Recomendo aos vereadores que aprovem uma excursão do prefeito Álvaro Damião urgentemente a Paris. Com hospedagem no Four Seasons Hotel George V, diárias a partir de R$ 14 mil, ou no Bulgari Hôtel Paris, que cobra valores modestos de R$ 15.500,00, para cima.
Fará bem a Belo Horizonte. Salvará a vida dos contribuintes que se aventuram pelos acostamentos estreitos e esburacados da cidade desprovida de ciclovias, homenageada pelo compositor Gervásio Horta em Bela Belô.
J.D Vital é autor do livro “SE RECLUTAN GUERRILLHEROS”, disponível na Livraria Ramalhete, à rua Pernambuco, 1.000 – Savassi, BH.



