
Durante muito tempo, tornar as coisas iguais foi uma conquista.
A Revolução Industrial descobriu o extraordinário poder da repetição. Peças iguais, medidas comuns, movimentos calculados, horários definidos. A fábrica precisava funcionar de maneira sincronizada e funcionou.
Produzimos mais, mais rápido e para mais gente. O mundo ganhou escala e aprendemos uma palavra que se tornaria quase uma religião no século XX: eficiência.
Mas, para que milhões de coisas fossem produzidas da mesma maneira, milhões de pessoas também precisaram aprender a fazer as coisas da mesma maneira.
A fábrica padronizou produtos. A escola organizou crianças por séries, horários e currículos. As empresas criaram cargos, procedimentos e comportamentos esperados. A publicidade ensinou o que desejar, o mercado, o que significava ter sucesso.
Viver em sociedade, naturalmente, exige acordos. Certos padrões tornam possível a vida coletiva. O curioso é perceber como essa lógica escapou das fábricas e entrou, silenciosamente, nos desejos, nas escolhas, talvez até nas ideias.
Nunca tivemos tantas possibilidades de escolha nem tantas recomendações “especialmente para você”.
Nunca fomos tão individualizados.
E, estranhamente, nunca foi tão fácil parecermos uns com os outros.
Viajamos para lugares diferentes e tiramos fotografias semelhantes. Repetimos expressões, indignações, certezas, modelos de sucesso e maneiras de ser feliz.
Até a rebeldia, às vezes, parece seguir tendências.
Talvez estejamos vivendo uma espécie de industrialização da subjetividade.
Gostamos do que os outros gostam. Desejamos o que aprendemos a desejar. Repetimos uma opinião porque ela nos parece familiar. Corremos porque todos correm, muitas vezes, sem perguntar para onde.
A inteligência artificial apenas torna o fenômeno mais visível.
Um estudo publicado na Science Advances encontrou um paradoxo interessante: pessoas apoiadas por inteligência artificial produziram histórias consideradas mais criativas, especialmente aquelas que inicialmente tinham maior dificuldade. Ao mesmo tempo, o conjunto das histórias tornou-se mais parecido.
Talvez a IA seja apenas mais um espelho. A homogeneização começou muito antes dela.
Está na pressa de formar opinião sobre tudo. Na necessidade de escolher lados. Na repetição de palavras cujo significado raramente examinamos. Nos valores que defendemos sem saber exatamente quando passamos a defendê-los.
E talvez esteja nas escolhas mais íntimas.
Que vida quero viver?
O que significa sucesso para mim?
Quanto do que desejo nasceu realmente em mim?
O que faço porque escolhi e o que faço porque é simplesmente assim que se faz?
Não precisamos virar filósofos antes do café da manhã, abandonar nossos celulares ou declarar guerra aos algoritmos.
Talvez baste recuperar uma capacidade discretamente ameaçada pela velocidade do nosso tempo: perceber-se.
Perceber o que pensamos enquanto pensamos. Observar o que escolhemos enquanto escolhemos. Reconhecer o outro sem precisar transformá-lo em uma versão de nós mesmos.
Há quase dois séculos, a industrialização nos ensinou o valor de produzir em série.
Agora, diante de máquinas capazes de escrever, criar, sugerir e imitar, talvez estejamos diante de uma revolução muito mais silenciosa.
Não a das máquinas.
A nossa.
Depois de tanto aperfeiçoarmos a capacidade de tornar as coisas iguais, talvez tenha chegado o tempo de descobrir o que, justamente por ser humano, merece continuar diferente.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica




