
A declaração do ministro da Defesa de que, em um cenário hipotético de confronto com os Estados Unidos, “teríamos que abrir o portão, porque não temos equipamento para enfrentá-los nem dinheiro para consertar o portão”, talvez tenha sido a mais sincera e preocupante admissão já feita por uma autoridade brasileira sobre o estado da nossa capacidade de defesa.
O problema não é reconhecer que existe uma enorme diferença de poder militar entre Brasil e Estados Unidos. Isso é evidente. O que causa perplexidade é a naturalidade com que o país parece aceitar a própria vulnerabilidade, como se ela fosse inevitável e até aceitável.
O Brasil vem aceitando, há décadas, um lento processo de erosão de sua capacidade de defesa, quer por pura incompetência ou por revanchismo burro.
Nenhuma nação responsável estrutura suas Forças Armadas para derrotar uma superpotência até porque creio que deveríamos ser uma. O objetivo é outro, desenvolver capacidade de dissuasão suficiente para tornar qualquer pressão militar, econômica ou estratégica inconveniente. Países respeitados não são aqueles que procuram guerras, mas aqueles que convencem seus adversários de que elas não compensam.
Enquanto grande parte do mundo amplia investimentos em defesa, indústria, tecnologia, inteligência artificial e segurança cibernética, o Brasil continua adiando decisões estratégicas. Perdemos tempo discutindo se investir em defesa é prioridade, quando a verdadeira pergunta deveria ser, quanto custará não investir?
O cenário internacional tornou-se mais competitivo. Disputam-se minerais críticos, rotas marítimas, energia, alimentos, água e domínio tecnológico. O Brasil reúne praticamente todos esses ativos em abundância. Ainda assim, insiste em acreditar que sua riqueza, por si só, será suficiente para garantir respeito internacional. Não será, podem acreditar!
A história demonstra que riquezas atraem interesses, e interesses nem sempre são defendidos pela diplomacia. A diplomacia ganha força quando está apoiada por credibilidade nacional, capacidade tecnológica e uma estrutura de defesa compatível com o tamanho e a importância do país.
Talvez a fala do ministro tenha produzido um efeito positivo, obrigar a sociedade a olhar para um problema que deixou de ser militar e passou a ser estratégico. A questão já não é quanto o Brasil gasta com defesa, mas quanto tempo ainda suportará conviver com uma capacidade de dissuasão cada vez menor diante de um mundo cada vez mais imprevisível.
A maior ameaça não é a possibilidade de uma invasão hipotética. É continuarmos acreditando que vulnerabilidades históricas se resolvem com discursos, enquanto outros países planejam décadas à frente. A incompetência de uma nação não está em reconhecer suas fraquezas, mas em conhecê-las, discuti-las há décadas e, mesmo assim, não fazer absolutamente nada para corrigi-las.
Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático



