Sagração da Primavera (por Lindolfo Paoliello)

Primavera, época primeira, aurora. [...]

Luminosa manhã, pra que tanta luz. Dá-me um pouco de céu, mas não tanto azul… E eu iria por aí, no clarão desses versos, se não entendesse que devo logo esclarecer que não são meus, mas da “Canção da Manhã Feliz”, de Haroldo Barbosa e Luiz Reis, com a qual saúdo as primeiras horas da primavera.

Minha quaresmeira, notando a sensualidade que me une à música e ao dia em festa, ruboriza-se toda e faz corar esta manhã divina. Houve quem dissesse que não se trata de uma quaresmeira, mas de uma setembrina, da mesma família, mas dada a florescer na primavera.

No entanto, a volúpia da manhã que acorda alcança e contagia as azaléias e mais além a Sibipiruna dói a vista, refletindo o sol em suas flores amarelas e prateadas.

Primavera, época primeira, aurora. É o prenúncio do verão, tempo de sol, antevéspera das festas. Tudo se espera da primavera. Já há quem escolha seu presente de natal, muitos planejam as férias, é quando mais se aspira, na primavera. Os mais ousados desejam veementemente; os tímidos devaneiam, fantasiam, sonham.

A gente vê em sonho, na primavera, não é mais inverno e ainda não é verão. Não há compromisso, tempo mais brasileiro; é de passagem, a primavera. A gente se entrega, deixa estar, contempla.

Seduz, ofusca, deslumbra a primavera e perde-se o juízo, entre tantas cores, tanta luz, tanta esperança.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br

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