Quanto custa ver a mais bela montanha (por Luis Giffoni)

Aprecio longas caminhadas, às vezes com mais de cem quilômetros. Feliz da vida, sem conforto, enfrento [...]

Aprecio longas caminhadas, às vezes com mais de cem quilômetros. Feliz da vida, sem conforto, enfrento doze, quinze dias em trilhas no meio do de cafundós sem nome. A maioria de meus amigos acha isso um programa indigesto e costuma rir de minhas escolhas. Debocham: gosto não se discute, lamenta-se.

Há alguns anos, fui conhecer, nos Andes peruanos, a montanha considerada a mais bela do mundo, o Alpamayo. Coberta de gelo, ela lembra uma pirâmide de marshmallow com quase seis mil metros de altura. Ou um gigantesco picolé de açúcar de confeiteiro.

Cheguei até sua base, a mais ou menos cinco mil metros. Planejei levar um filho e três amigos. Quando pensaram as dificuldades que enfrentaríamos no caminho, todos desistiram. Um a um, acovardaram-se. Houve quem me perguntasse se por lá havia hotel cinco estrelas. Acabei me aventurando sozinho, com um guia local.

Alcançar o Alpamayo, de fato, não é fácil. Andei seis dias por trilhas estreitas, escorregadias e selvagens. Cruzei passos junto às nuvens, desci ao fundo de vales, de novo subi, encarei morainas, precipícios, vento, neblina, chuva, granizo e neve. Apesar do frio, suei muito. Nas escaladas, faltou ar. Banho, só nos riachos que descem das geleiras. Banho de gato.

A beleza da região compensou, com folga, o desconforto. Nas partes mais baixas, curti cachoeiras com centenas de metros de altura, matas intocadas, córregos azulados, muitas aves, flores e líquens. Nos glaciares, as avalanchas pareciam quedas-d´água em pó. Rochas retorcidas pelo embate das placas tectônicas, derrubadas por terremotos ou coloridas pelos sedimentos das eras antediluvianas, me seduziram. As trincas no solo ou nos cumes provocadas por tremores que não couberam na Escala Richter me assustaram pelo tamanho da energia que a Terra libera. Ainda sinto a pureza do ar.  Deu-me uns anos a mais de vida.

Numa tarde, após dura nevasca, o tempo abriu, e os picos dos Andes se exibiram com toda a majestade, agulhas brancas cutucando o céu. Cinco condores planavam, senhores absolutos do espaço, ao sabor das correntes, pura curtição zen das aves. À noite, vi três vezes mais estrelas que nas grandes cidades brasileiras. Senti-me em outro planeta, tão diferentes ficaram as constelações.

Ao chegar ao Alpamayo, cansado e emocionado, a superação de meus limites me encheu de euforia. Conseguira. Pensei no filho e nos amigos que não tinham vindo. Se vivenciassem um pouquinho de minha alegria, se apreciassem mais a natureza intocada, se respirassem o frio das alturas, se experimentassem por um segundo a visão da mais bela montanha da Terra, teriam topado a aventura. O Alpamayo não tem preço.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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