A volta das rolinhas (por Lindolfo Paoliello)

me perguntam por que é que não esqueço as rolinhas e vou pensar na taxa de juros e na inflação. [...]

Leio que as rolinhas estão voltando aos quintais de Belo Horizonte. Fico feliz e surpreso, por elas voltarem e por ainda haver quintais.

Rolinhas e quintais marcaram a minha infância, elas com seus chilreado e os quintais com grandes mangueiras, goiabeiras e pés-de-carambola.

Não sabia que as rolinhas tinham voltado, acho que por não ter quintal. A notícia informa que elas também têm aparecido nas ruas mais tranquilas e em apartamentos de cobertura, donde constato que meu “habitat” já não é mais o das rolinhas.

No entanto, integro-me aos que comemoram a volta das rolinhas e, sempre que posso, chego à janela e olho com esperança a jardineira. Vejo, com orgulho, que estão crescendo os gerânios e samambaias que plantei e, enquanto as rolinhas não vêm, fico pensando por que será que elas estão voltando.

Tenho mesmo incomodado alguns amigos com essa dúvida e me divirto com suas reações. Há os que se interessam e respondem que Belo Horizonte está voltando a ser uma cidade verde; outros dizem que a causa está lá, no campo, no desmatamento, herbicidas e inseticidas que afugentam os pássaros; há os que encabulam e prometem telefonar mais tarde; há principalmente, os que me perguntam por que é que não esqueço as rolinhas e vou pensar na taxa de juros e na inflação.

A esses tenho respondido que passei a me interessar por aves, em tempo integral. São mais interessantes e mais fáceis de entender do que os economistas. São, sobretudo, mais úteis. As aves falconiformes, por exemplo (gaviões, águias, falcões), auxiliam o equilíbrio ecológico entre os pequenos animais, eliminando os defeituosos e os enfermos. As corujas, mochos e calunés controlam as populações de roedores. As aves cinegéticas (codornas, perdizes, e inhambus) cumprem missão ainda mais generosa: alimentam o homem do interior brasileiro, tarefa em que os economistas, visivelmente, não têm tido nenhum sucesso.

Fico com as aves, úteis em sua simplicidade e beleza. Volto à pequena jardineira do meu apartamento onde, seguindo o conselho da notícia, deixei uma vasilha com canjiquinha de milho, fubá grosso e arroz cru, esperando que uma rolinha pouse.

Lindolfo Paoliello é cronista e acaba de lançar sua nova coletânea de crônicas, “A guerra de cada um”, pela Editora De Rey. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br/Guerra-Cada-Um-Lindolfo-Paoliello-ebook/dp/B0H8F5P314/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&crid=ZD7AI6KSTIXC&dib=eyJ2IjoiMSJ9.n7ItEgUk7dOcIplp-pmqHpCxkuTO2lOeRj7JwReJNwYVosn2yuy-PdmrFUO3bsVZDgfB2Nf4xeV6oyfANmxQfkU0qSHyPR2cvQFl3ioXrkc.epxp9nd_a7XyZuqt2MF1TTSCVUzA0qbR5k6p54U_p3o&dib_tag=se&keywords=Lindolfo+Paoliello&qid=1785366742&sprefix=lindolfo+paoliello+%2Caps%2C277&sr=8-1

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