
São 6 da manhã. Preciso estar no laboratório para um exame de sangue de rotina daqui a meia hora. Olho para o carro, olho para a rua. O céu, polido como se fosse novo, embrulhado num friozinho que refresca os pulmões, me faz decidir: vou a pé. Há muito, não vejo Belo Horizonte acordar. Hoje será o dia. Caminhando entre a Serra e o Funcionários, acompanho a cidade. Ela sai da cama sem pressa, coça os olhos, boceja, para no bar da esquina, toma uma média de café com leite, troca algumas palavras, espera o ônibus, confere a hora. Descubro uma incongruência: BH arranca devagar, mas se levanta já de olho no relógio.
Surpreendem-me perfumes que julgava extintos: o do jasmim, seu restinho de fragrância noturna misturada à umidade do orvalho, é um requinte para o olfato; o aroma do pão francês saindo do forno me alcança na Rua do Ouro, um must em todas as mesas, décadas atrás, quando a manteiga ainda não entupia as artérias; também percebo um raro odor de bolacha, semelhante ao que havia na Cidade Industrial nos anos 1980. Mais abaixo, paira o frescor de manhã limpa, um cheiro sem cheiro que me alenta. Um estudante passa por mim, afobado, contando moedas. Aposto que nada sente. O contato frequente com as manhãs deve obstruir a sensibilidade.
Numa esquina, bandos de rolinhas e pombos lutam pelos grãos que lhes lança um homem com roupão vermelho. Famintas, as aves tornam-se desatentas. Em meu tempo de menino, talvez eu tentasse capturar alguma. Hoje, curto sua liberdade, pois sei como a minha é boa. Maritacas atacam as sementes das espatódeas. Bem-te-vis desconfiados cantam de longe. Alguém deve cloná-los. São iguaizinhos.
Na saída da farmácia, um pai corre rumo ao carro com remédios na mão e um semblante aflito. Minha imaginação tenta adivinhar o que não vai bem, contenho-me: seria ele realmente um pai? Por que não um filho?
O chaveiro sobe de uma vezada a porta de enrolar da loja. Barulho de trovão. Na casa ao lado, acabaram de coar café e assar pão de queijo. Atração fatal no ar. Quase toco a campainha e imploro uma xícara da bebida e uma quitanda, perdendo o jejum de dez horas exigido para o exame.
Chego à Getúlio Vargas. Poucos carros. Ciclistas circulam, tranquilos, sem olhar para os lados. Os madrugadores estão no paraíso. Eu caio do céu: tropeço num buraco na calçada, torço o pé. A falta de cuidados do poder público quase me obriga a usar o poder público no pronto-socorro do Hospital João XXIII.
Sob uma marquise, um mendigo magérrimo dorme. Não se importa com a manhã: quem nota a manhã quando não tem amanhã? Rumando para uma academia, vários malhadores passam pelo dorminhoco, sem notá-lo. Contraste social: uns lutam contra o excesso de peso, outros… Ouço o tum-tum-tum dos passos sobre as esteiras de exercício. Prefiro a da rua. Acho monótono correr sem sair do lugar.
O feireiro monta sua barraca de frutas e legumes. Feira de bairro me remete à tradição, à continuidade, à impressão de que, no fundo, o mundo não muda. Ano após ano, a mesma rotina. Também pudera. Ano após ano, todos carecemos de comida. Quase me rendo a um caqui madurinho. Afasto-me com um olhar comprido sobre a fruta. Quem sabe, na volta.
Meu reencontro com a cidade tem sabor de novidade, apesar do jeitão antigo, velho conhecido. Encanto-me com o mesmo, com o ritmo que, há muito, não testemunho. Na verdade, eu mudei: sumi das manhãs. Enquanto BH acorda, eu também acordo. Pela segunda vez no dia. E redescubro a cidade que me acaricia com seu despertar. Ternura mútua.
Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti
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