Da impotência ao ato: como transformar intenção em ação coletiva (por Elson Pimentel)

Outro dia, durante uma reunião da Associação dos Ex-alunos do Colégio Estadual de Minas Gerais (Aexa), [...]

Outro dia, durante uma reunião da Associação dos Ex-alunos do Colégio Estadual de Minas Gerais (Aexa), olhei em volta da mesa e tive uma sensação curiosa. Éramos quase todos da mesma geração. Quase todos formados nas décadas de 1960 e início dos anos 1970. Cabelos brancos, muitas histórias, enorme carinho pelo Colégio e uma pergunta silenciosa que talvez nenhum de nós formulasse daquela maneira:

Será que ainda conseguimos ser úteis?

Confesso que a primeira palavra que me ocorreu foi ‘impotência’. Acompanho o leitor que sorri imaginando outro assunto, mas esclareço: não falo da impotência que aflige os médicos, e sim daquela que intrigava Aristóteles — a dificuldade de transformar potência em ato.

Penso no caroço de manga que jogamos no quintal. Ele não é uma árvore por enquanto, mas tem em si, organizada, a potência de se tornar mangueira, desde que encontre terra, água e tempo. Nossa geração, por mais que o espelho insista no contrário, ainda carrega em si essa potência organizada: experiência, redes, memória. Falta apenas encontrar o solo onde possa germinar.

A distância entre passado e futuro

Muitos de nós participaram daquele período singular da história brasileira. Mas talvez o que mais tenha nos marcado tenha sido o lugar onde tudo começou.

O prédio do Colégio Estadual, projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1956, parecia anunciar um país que acreditava no futuro. Eram os anos de Brasília, da expansão das universidades, da industrialização, das grandes obras de infraestrutura e da confiança de que educação e desenvolvimento caminhavam juntos. Sem perceber, estudávamos dentro de um projeto de país. Não fomos seus autores, mas ele nos formou profundamente.

Talvez seja por isso que continuemos inquietos. Não queremos apenas recordar aquele tempo. Gostaríamos de ajudar as novas gerações a enfrentar uma realidade completamente diferente. É aí que começam as nossas dificuldades.

Quando o pertencimento não basta

Uma associação de ex-alunos vive de trabalho voluntário. Descobrimos, porém, que boa vontade é abundante; voluntários, nem tanto.

Há colegas que simplesmente não podem participar. Há outros que preferem manter distância. Existe também um grupo numeroso que acompanha nossas conversas pelas redes sociais, comenta fotografias antigas, recorda professores inesquecíveis e prestigia nossos encontros. Esse vínculo afetivo é precioso. Ele mantém viva uma identidade comum.

Mas há também um pequeno grupo — muito pequeno — que organiza reuniões, escreve projetos, procura parceiros, conversa com professores, enfrenta burocracias e tenta imaginar o futuro da associação.

A distância entre interesse e cooperação

Durante algum tempo pensei que esse fosse apenas um problema de disposição individual. Foi então que me lembrei de David Hume.

No Tratado da natureza humana, publicado em 1740, Hume imagina dois vizinhos que precisam drenar um pântano. Eles conseguem combinar horários e dividir o trabalho. E cada um sabe que, se desistir, o esforço do outro será inútil. Mas, quando são mil vizinhos diante da mesma área alagada, tudo muda. Todos encontram uma boa razão para esperar que outro comece primeiro.

Sem usar essa linguagem, Hume havia descrito um dos grandes problemas da ação coletiva.

O que separa o interesse imediato e o benefício coletivo

Dois séculos depois, a teoria dos jogos mostrou que esse comportamento não revela uma falha moral. É uma consequência previsível da lógica da cooperação. Quando um benefício é compartilhado por todos, mas depende do esforço de poucos, surge a figura conhecida do ‘carona’: alguém que aprecia o resultado, embora espere que outros assumam os custos.

Esse mecanismo se mostra em condomínios, clubes, movimentos sociais e também na Aexa.

Nosso desafio não consiste em eliminar os caronas. Eles sempre existirão. O que realmente importa é convencer alguns deles a se tornarem agentes. Não precisamos de centenas de novos dirigentes, e sim de algumas dezenas de pessoas dispostas a assumir pequenas responsabilidades visíveis.

“Há uma distância entre intenção e gesto”

O psiquiatra George Ainslie sugeriu em Breakdown of Will (2001) que essa distância não decorre apenas da falta de caráter ou de disciplina. Ela nasce do fato de que nossa vontade não é um bloco único e permanente. Ao longo do tempo, diferentes versões de nós mesmos negociam prioridades.

Dessa forma, o carona não se resume a alguém que espera o outro agir; é aquele cujo ‘eu de hoje’ desmente o ‘eu presente no encontro entre amigos’ de ontem. Sem esse discreto acordo entre os diversos ‘eus’ que atravessam a nossa vida, o pântano nunca é drenado, pois o vizinho que se comprometeu na sexta-feira já não reconhece o combinado que fez na segunda-feira.

Como reduzir a distância entre uma geração e outra

Todas essas constatações conduzem a outra preocupação.

Hoje, a Aexa é formada predominantemente por ex-alunos das décadas de 1960 e início de 1970. As gerações seguintes pouco aparecem em nossas assembleias, grupos de trabalho e projetos. Elas permanecem em silêncio.

O que todos nós, que recebemos tanto, podemos fazer, em conjunto e em sequência, para retribuir?

Tivemos uma escola pública extraordinária, professores memoráveis, colegas que se tornaram amigos para toda a vida e uma formação que nos permitiu construir nossas trajetórias profissionais. Tudo isso é muito mais do que um diploma. No mundo de hoje, as questões são outras.

Desafios de um mundo novo

Inteligência artificial, novas formas de trabalho, profundas transformações tecnológicas e educacionais, mudanças demográficas e culturais desenham um cenário que nossa geração jamais poderia imaginar quando ocupava os bancos daquele edifício modernista.

Justamente por isso, nossa experiência não perdeu valor. Ela apenas mudou de função. Não seremos chamados a construir o futuro da mesma maneira como fizemos no passado. Mesmo assim, podemos ajudar aqueles que o farão.

A distância que ainda podemos reduzir

No início deste artigo falei em impotência. É possível que a palavra continue apropriada, mas agora ela ganhou outro significado.

A verdadeira impotência não é a da idade. É a incapacidade de transformar uma enorme experiência acumulada em ação coletiva.

Se conseguirmos que alguns passageiros assumam o volante, que outros tantos caronas descubram a alegria de cooperar e que boas intenções, enfim, encontrem formas concretas de se transformar em projetos, Aristóteles continuará tendo razão: a potência existe para realizar-se em ato.

Desconfio que nosso maior desafio não seja deixar um legado. Seja corresponder ao que recebemos, principalmente de um país que, em determinado momento de sua história, ousou apostar na educação como instrumento de transformação.

Caso consigamos isso, mesmo que modestamente, o velho edifício de Oscar Niemeyer continuará cumprindo a missão para a qual foi concebido há setenta anos: preservar um passado admirável e preparar sucessivas gerações para acreditar que o futuro pode ser construído.

Elson Luiz de Almeida Pimentel

Mestre em Filosofia pela UFMG

Ex-aluno do Colégio Estadual Central – BH/MG
Diretor da Aexa – Associação dos Ex-Alunos e Amigos do CE

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