“Selo de Acurácia Eleitoral” (por Adriano Oliveira)

Nestes meus 17 anos trabalhando com pesquisas eleitorais, ainda não tive a oportunidade de conhecer [...]

Nestes meus 17 anos trabalhando com pesquisas eleitorais, ainda não tive a oportunidade de conhecer um político que não gostasse da famosa pesquisa de intenção de voto. Por outro lado, consegui convencer muitos deles de que os sentimentos importam muito mais do que a posição do candidato na disputa eleitoral, principalmente quando a eleição ainda está distante.

Desde 2018, tomei uma decisão: a Cenário Inteligência não faria mais pesquisas quantitativas, apenas pesquisas qualitativas, por meio de entrevistas em profundidade e da aplicação do Método SEP (Sentimentos – Estratégia – Previsão). Tomei essa decisão por uma convicção fundamental: os números revelam muito pouco sobre os sentimentos e os desejos dos eleitores e são incapazes de possibilitar a construção de estratégias e a previsão eleitoral. Prefiro a fala do eleitor à sua opinião imediata e excessivamente objetiva.

Quando o eleitor fala nas entrevistas em profundidade, ele expõe seus sentimentos, desejos e crenças. O ambiente de escuta favorece que se sinta livre para revelar ao entrevistador aquilo que pensa, sente e pretende fazer no presente e no futuro. Ao final da pesquisa, o estrategista está diante de milhares de evidências que lhe permitem desvendar a complexidade do eleitor e responder à questão fundamental: por que os eleitores têm determinada opinião?

A pesquisa quantitativa não desvenda os porquês das respostas. O eleitor faz uma escolha porque é estimulado pelo pesquisador. Diferentemente do que ocorre nas entrevistas em profundidade, o votante não é incentivado a refletir e a construir suas respostas. O processo eleitoral brasileiro, ao contrário, é longo e dinâmico. Nele, o eleitor é continuamente provocado e levado a construir opiniões que, muitas vezes, escapam à lógica do analista quantitativo ou ao padrão, equivocado, da suposta racionalidade do voto.

Como os próprios institutos afirmam, a pesquisa quantitativa — em especial a de intenção de voto — é um retrato do momento. E isso é verdadeiro, pois o eleitor faz uma escolha imediata, sem ser provocado a refletir, como ocorre nas entrevistas em profundidade, sobre as razões de sua decisão. A resposta à intenção de voto é quase automática, quase binária, e não revela — aí reside seu maior limite — a complexidade dos sentimentos que conduzem o eleitor às suas escolhas presentes e futura.

A proposta do ministro do Tribunal Superior Eleitoral Nunes Marques de criar um “Selo de Acurácia Eleitoral” para os institutos de pesquisa é equivocada e revela desconhecimento sobre o processo de decisão do eleitor. Mais do que isso, expõe uma limitação fundamental da pesquisa de intenção de voto: sua incapacidade de desvendar satisfatoriamente as razões da escolha do eleitor e de antecipar o futuro. O problema não está nos institutos de pesquisa, mas na hipervalorização da intenção de voto.

*Artigo originalmente publicado no O Povo

Adriano Oliveira é Cientista Político. Professor da UFPE. Fundador da Cenário Inteligência: Pesquisa qualitativa & Estratégia.

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