
O Amazonas é gigantesco, selvagem e desafiador.
É o maior rio do mundo em volume de água que deixa qualquer turista encantado, por ele e pela floresta que o cerca. O encontro das águas do Negro com o Solimões, que formam o Amazonas, é ponto turístico obrigatório para quem vai à região. Eu fui.
As negras águas que vêm da esquerda encontram-se com as barrentas que vêm da direita, trazendo tudo que encontram pela frente. Árvores, barrancos, pedações de terra como se fossem pequenas ilhas, pedras, tudo, inclusive os sonhos dos ribeirinhos. A correnteza é fortíssima, tem profundidade abissal e tudo isto encanta a quem tem o privilégio de vê-lo de perto.
Para este encontro, e navegar sobre ele, aceitei o convite de uma grande empresa, que colocou em belo iate á nossa disposição, seus convidados, de diversas regiões do Brasil e do exterior.
Partimos do píer do antigo Hotel Tropical, mais ou menos 30 pessoas, fomos recebidos pelo comandante, numa manhã de céu aberto, com votos de boas-vindas e muitas recomendações.
– Solicito muito cuidado e atenção de todos, porque o rio tem forte correnteza, a navegação neste trecho é perigosa e não são raros os acidentes. Vamos percorrer rio abaixo, uns 30 minutos, parar os motores, ver o encontro das águas, voltar a movimentar, navegar 60 minutos rio acima, parar de novo os motores em um igarapé, onde quem quiser pode mergulhar. Nos igarapés as águas são quentes e tem curiosidades da floresta que vocês vão apreciar. Enquanto isto, relaxem tomando bebidas que vou mandar servir, acompanhadas de petiscos da região. Nossa tripulação está à disposição de todos e façam um bom passeio.
Ele foi claro, gentil, paternal e, sem dúvida, coberto de razão. Isto eu constatei daí a pouco.
Na euforia do passeio, bebendo duas ou três doses em pouco tempo e, querendo fazer graça pras moças bonitas que estavam no deque, na hora que pararam os motores, não tive dúvida. Já estava de sunga, fui ao parapeito do barco, abri os braços para chamar a atenção do grupo, dei um belo salto, estilo ornamental, de uma altura de 4 metros, como nos meus velhos tempos de nadador. Ao voltar à tona, o barco já estava longe, mais de 200 metros de distância e não entendi nada. Aliás, entendi sim, mas já era tarde. O comandante mandou um pequeno barco me buscar e fui recebido a bordo com uma bronca de dar gosto.
– O senhor é um irresponsável, sem juízo, um aparecido. O senhor sabe o tamanho dos peixes que vivem aqui? O devorariam em uma só bocada. Já ouviu falar do Candiru? E dos gigantescos troncos que descem o rio e poderiam te matar?
Eu não sabia onde enfiar a cabeça. Todos me reprovaram e não adiantou meu argumento de que cometera um engano, com um sorriso amarelo tentei explicar que confundira a hora de mergulhar. Totalmente sem graça, cabisbaixo, deprimido, fiquei boa parte do passeio com o complexo de estraga prazeres.
Enfim, pra não dizer que tudo foi em vão, valeu pela história que ficou pra contar e aprendi que candiru é um pequeno peixe da região, que penetra nos humanos por qualquer orifício que encontra, e ao fazê-lo abre suas nadadeiras, tornando sua saída só possível através de cirurgia. Credo.
Nestor de Oliveira é Jornalista e Escritor



