
Sabemos todos, mesmo quem nega a crise ambiental, que, mantido o “business as usual”, o futuro é catastrófico. Recente relatório mostrou um outro caminho que permite recuperarmos a esperança de nossos filhos e netos terem uma boa qualidade de vida. O estudo é parte de uma agenda internacional mais ampla, que busca recuperar a habitabilidade deste planeta e alcançar justiça social. Trata-se do “Global Justice Report: Um plano para a Igualdade e Prosperidade dentro das fronteiras planetárias”, coordenado pelo World Inequality Lab, dirigido pelo renomado Thomas Piketty. O relatório é de suma importância e pode ser lido aqui.
(https://globaljusticeproject.wid.world/insight/summary/).
O GJR identifica políticas para construir tal futuro e estima os resultados a que podemos chegar, no ano 2100. A desejabilidade dessa nova trajetória certamente terá apoio de mais de 98% dos humanos, embora a minoria contrária talvez seja capaz de impedir sua construção, como aliás esse mesmo grupo tem feito com relação a tantos temas importantes para aquela maioria. Citando:
“Concretamente: A renda nacional mensal per capita converge para €5.000 em cada país, reduzindo uma diferença que hoje é de 16 vezes. A participação da metade mais pobre da população na riqueza global aumenta de 2% para 30%, enquanto a participação da classe bilionária diminui de 6% para 0,05%. Quase 90% da população mundial dobra sua renda enquanto trabalha aproximadamente metade das horas atuais. O aquecimento atinge 1,8°C por volta de 2100, em vez de mais de 4°C seguindo o business as usual. […] Para evitar catástrofes climáticas, mostramos que é necessária suficiência: uma transformação estrutural da economia envolvendo jornadas de trabalho mais curtas, uma pegada material mais baixa, uma mudança de setores intensivos em materiais para setores relativamente imateriais como educação e saúde, e grandes alterações nos sistemas alimentares e no uso da terra. Rápida descarbonização dos sistemas energéticos também é necessária, assim como a compressão acentuada de desigualdade de renda e riqueza. Essa compressão é tanto um objetivo de justiça social quanto uma condição para financiar o investimento climático necessário e o investimento em capital humano e para manter o apoio político das classes de baixa e média renda no Norte e no Sul.”
Se o veículo em que estamos se dirige ao abismo, temos de efetuar profundas mudanças para evitar o desastre. Extermínio de espécies, mudanças climáticas, poluição generalizada, congestionamentos por toda parte, desertificação, escassez de água, ondas de calor cada vez mais fortes e duradouras, entre outros sinais, evidenciam as consequências do rumo que trilhamos. Esta é, em síntese, a situação dos humanos neste início do segundo quarto do século XXI. Como não existe a opção “parar” – afinal, tudo está em permanente mudança! -, há que mudar a direção!
Trabalhar menos, ganhar mais, reduzir as desigualdades, melhorar a saúde, habitação e educação de todos, alcançar equidade entre os gêneros, arrefecer as mudanças climáticas, entre outros benefícios. De fato, com tantos bônus, só os hiper beneficiários da situação atual moverão montanhas para impedir trilharmos esse novo rumo. Donde, será necessário um trabalho político árduo, amplo e duradouro para superar tais resistências, a começar pela omissão dos órgãos de imprensa em divulgar as conclusões do GJR.
O conjunto das mudanças propostas pode ser resumida na frase, também constante do GJP: “Da plutocracia planetária à democracia global”.
Voltarei a tratar do GJR, na esperança de a ajudar a difundir suas conclusões, apoiar a construção desse novo caminho, e ainda a desfazer as inevitáveis menções à impossibilidade de a humanidade se tornar… humana!
Eduardo Fernandez Silva é Mestre em Economia pelo Institute for Social Studies da Universidade de Hague. Foi Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Autor.




